Queimem a Bruxa!

Queimem! Queimem! Queimem a Bruxa!

Por Laphroaig Al’Hazred

Nessa série sobre a influência cristã no conceito de bruxaria, já falamos sobre como a bruxaria como um fenômeno foi uma invenção da igreja, as atrocidades da inquisição e o manual de caça às bruxas da Igreja. Neste último texto, concluímos com uma história que você talvez não conheça – de bruxas sendo queimadas até aqui, no Brasil – e outras coisinhas mais.

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E assim a inquisição se transformou em uma das maiores máquinas misóginas da história moderna. Você não precisava adorar ao diabo para ser bruxa, bastava ser mulher. Você não precisava ser bruxa para ser má, bastava ser mulher. Gostar de transar mais do que um homem gosta? Bruxa. Ser muito atraente? Bruxa! Ser pouco atraente? Bruxa! Ser inteligente? Bruxa! Imagine um mundo onde nascer com uma vagina era o mesmo que nascer com um passaporte com visto eterno para o inferno!

E a histeria anti-mulheres não aconteceu apenas na Europa. Os tribunais de bruxaria em Salem, Massachusetts, mostram como ela chegou aos EUA.

Já no Brasil, o Tribunal do Santo Ofício nunca foi instaurado, ainda que tenhamos recebido três Visitações dele. Os “Visitadores”, enviados pelo Tribunal com o intuito de averiguar algum tipo de acusação, estiveram apenas nas capitanias prósperas na época: Grão-Pará, Pernambuco e Bahia. Como na época São Paulo não era nada além de um pobre aglomerado de algumas dúzias de ruas e vielas ao redor do rio Tamanduateí, a caça às bruxas ficou a cargo do clero local. Mesmo assim algumas mulheres acusadas de bruxaria conheceram a morte na fogueira da “Inquisição paulistana”.

Um dos casos famosos da inquisição da Terra da Garoa foi o de Ursulina de Jesus. Em 1754 foi acusada pelo próprio marido, Sebastião, de praticar bruxaria. De acordo com o maridão, a esposa fazia feitiços para retirar-lhe a virilidade e assim evitar que tivessem filhos. Essa história, inclusive, foi corroborada por Cesárea, a amante de Sebastião! Ursulina foi condenada, morreu na fogueira e dois anos após sua morte Cesárea e Sebastião se casaram, sem nunca terem tido filhos.

O maior problema, então, não era que a bruxaria era uma arte tipicamente feminina. Com o passar do tempo a bruxaria se tornou a arte de criaturas sobrenaturais que se pareciam com mulheres. Ser acusada de ser bruxa não era o mesmo que ser acusada de ser uma mulher que transou com o diabo, era ser acusada de ser uma besta infernal que tinha a forma de uma mulher. A crença que se metamorfoseou em Portugal e Espanha e veio nas caravelas para o Brasil afirmava que a mulher, mãe de seis filhas, teria uma Bruxa em seu sétimo parto. A bruxa, neste aspecto, era vista como uma figura amaldiçoada, uma versão feminina do lobisomem. Caso a mãe não tomasse as devidas providências, sua sétima filha, ao completar sete anos de idade, se transforma em mariposa – que até hoje também é chamada de bruxa – para entrar pelas fechaduras das portas e chupar o umbigo das crianças recém-nascidas. A criança vítima da criatura adoece de um mal chamado de “Mal de sete dias”, que quase sempre termina em morte.

Mas algo pegou a igreja e os fiéis de surpresa. Isso aconteceu em meados do século XX, quando Gerald Gardner acabou popularizando uma forma “não maligna” de bruxaria. Ele difundiu a crença da Wicca e mostrou ao mundo que bruxas não adoravam ao diabo, não eram mulheres más e nem faziam mal aos outros. Talvez para se livrar do peso que a idade média havia depositado sobre suas costas, as bruxas modernas faziam questão de se mostrar como pessoas do bem, divulgando que a bruxaria – ou Grande Arte – era usada como forma de crescimento pessoal, de comunhão com a Deusa. E que nunca ninguém ali curtiu o diabo, era apenas o Deus Cornudo, que por possuir chifres se parecia com o diabo, que aliás tinha sido inspirado na figura de Pã, que era uma figura cultuada pelos romanos antigos, e logo era também pagão – assim, nunca houve um diabo! Apenas a demonização de uma figura pagã inofensiva com o objetivo de se levar ignorantes medrosos para a missa e assim encher mais as cestinhas de oferendas e o clero poder encher os bolsos com ainda mais dinheiro.

Essa nova visão mostrava que a igreja católica era má e manipuladora, que os fiéis eram ignorantes que criavam turbas de linchamento ao menor sinal de alguém gritando “BRUXA”, e que as bruxas eram mulheres livres, que gostavam de praticar amor livre, de se curar e curar o planeta e não ligavam de beber e fumar e ouvir aquela música nova que a molecada chamava de rock and roll.

Acha essa avaliação exagerada? Lembre-se então – se você tiver idade para isso – de uma série de televisão chamada A Feiticeira. Ela foi lançada em 1964 pela rede de televisão norte-americana ABC. A série mostra a vida de uma bruxa que se casa com um homem mortal (o que mostra o aspecto sobrenatural da bruxa, que nem é mais humana) e se dispõe a levar uma vida de Amélia dona de casa suburbana com ele. Samantha, a bruxa esposa, mulher boa e submissa, mulher bonita casada com um homem feio e desengonçado que aparentemente não tem nenhum outro atrativo passa a nova imagem da bruxa boa. Sua mãe Endora era a sogra, a bruxa ruim, que não perdia oportunidades de usar sua magia para castigar o genro. Eventualmente a bruxa imortal e o marido têm uma filhinha que nasce bruxa e tem que tomar cuidado para não usar sua magia na frente de estranhos. Esta série se tornou a segunda atração mais assistida nos Estados Unidos em seu ano de estreia e a mais longa série televisiva com temática sobrenatural durante os anos 1960 e 1970, sendo até hoje exibida em todo mundo através de reprises.

Sim! Depois de séculos de perseguição e violência, as bruxas finalmente tiveram paz para levar seu estilo de vida adiante. Adorando sua Deusa Barbie, uma versão feminina de Jesus, preferindo quebrar as próprias pernas a fazer mal ao próximo. Entrando em discussões homéricas, negando qualquer acusação de adoração ao diabo e às trevas. ELAS SÃO MULHERES DE BEM, PORRA! O QUE MAIS VOCÊ QUER?

Garotas boas vão para os Céus, garotas más vão para onde bem entenderem!

Na verdade em um mundo onde a miséria impera, onde uma em cada três pessoas no mundo ainda não têm acesso a serviços de saneamento básico e água potável, onde aproximadamente 870 milhões de pessoas têm menos comida do que precisariam para sobreviver, ter mais pessoas boas do que más por ai é uma vitória. Mas cuidado para não se enganar com isso. As pessoas deveriam evitar lucrar com a dor e miséria do próximo como princípio básico, independentemente de religião ou crença. Todo mundo deveria ter os mesmos direitos básicos, os mesmos direitos a água, proteção, comida e acesso à educação. E não podemos nunca nos esquecer de quem foi o primeiro a lutar por direitos iguais.

O século passado foi fenomenal em criar uma legião de sorrisos alimentados por Prozac e outros anti-depressivos. A era da liberação sexual e do viagra! Quando descobrimos que os maiores abusos sexuais a jovens não aconteciam apenas na igreja, mas em festinhas cheias de álcool, roupinol e pessoas com celulares empolgadas para compartilhar vídeos caseiros. O século passado também foi ótimo para deixar claro que ser bom não é sinônimo de ser idiota, e que as trevas costumam servir de repelente para esse tipo de hipocrisia.

E, por mais que muita gente preferisse acreditar, as bruxas nunca desapareceram. Não as mulheres atraentes, não as pessoas desagradáveis ou fonte de inveja, não as pessoas que antes da medicina se especializavam em ervas para curar ou abortar. Estamos falando das bruxas que mergulhavam na Magia e se alimentavam d’Ela e viviam para a Arte.

Bruxas que sabiam que as Trevas também vivem em nós. Algo que Jung só foi descobrir muitos séculos depois. Como uma lâmina, a magia não tem bondade ou maldade em si, está muito acima disso! Os segredos da Terra e do Sangue e das Lágrimas não foram esquecidos, apenas continuaram sendo passados da mesma forma de sempre: em segredo e em respeito.

E é motivo de conforto saber que essas bruxas nunca deixaram nosso lado, elas ainda estão presentes em nosso mundo, rindo e aprendendo e comemorando. Elas continuam fazendo suas reuniões, dançando no escuro!

E se você ficou com vontade de saber mais sobre a bruxaria tradicional, que não tem nada a ver com as invenções cristãs, A Arte dos Indomados, de Nicholaj de Mattos Frisvold, é uma ótima dica de leitura. Você encontra o livro na loja da Penumbra.

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