Os Deuses estão mortos! Longa vida a Deus!

Os Deuses estão mortos, vida longa a Deus!

Por Laphroaig Al’Hazred

É engraçado, mas a Bruxaria não existiria sem o Cristianismo. Não engraçado tipo “háháhá, olha o gif animado do astronauta tropeçando”. Está mais para o engraçado tipo “nossa, olha a Ursulina de Jesus sendo queimada viva em 1754, na cidade de São Paulo, acusada pelo próprio marido de ser bruxa!”. Um tipo de engraçado que não te faz rir, mas te faz coçar a cabeça.

Bruxas aparentemente sempre existiram. Podemos rastrear suas origens até o passado gelado da sibéria, até o xamanismo primitivo que buscava curar, arranjar comida e se certificar de que a tribo não seria dizimada. Eram pessoas que, por um motivo ou por outro, tentavam interagir com o mundo que as cercavam se utilizando de algo além dos cinco sentidos comuns a todas as pessoas. Elas se envolviam com aquilo que a maioria não via, não ouvia, não suspeitava que existia. Mas se a magia nasceu como uma forma de medicina, a bruxaria já nasceu como uma forma de maldade!

O Cristianismo no Império Romano

O cristianismo se tornou a religião oficial do império romano no século IV. Primeiro veio Constantino com seu lema “um Deus no Céu, um imperador na Terra” e seu Édito de Milão, garantindo a liberdade para se cultuar “qualquer deus” em 313 d.C. E então, no ano 380 d.C. o imperador Teodósio I passou o seu Édito de Tessalônica. De acordo com Pedro Vasconcellos, teólogo da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), “Teodósio apenas sacramentou um processo de algumas décadas, consolidando a tendência inaugurada por Constantino”. Na prática, ali estava sendo criado um novo alvo para um antigo preconceito.

Os romanos sempre foram um povo beligerante. Podemos dizer que eram os bullies da Europa antiga. Os próprios cristãos já haviam sido alvo das brincadeiras de mal gosto dos romanos, como aqueles perseguidos por Nero no século I, ou os perseguidos no século II por se recusarem a fazer parte do exército imperial, e assim por diante. Mas quando os romanos se tornaram cristãos eles passaram a perseguir outras vítimas religiosas, todo mundo que não fosse cristão. E com perseguições surgem termos pejorativos para serem usados com os perseguidos.

Pagani e Milites

Antes da conversão da nação romana para o cristianismo, os romanos usavam o termo paganus para apontar alguém que vivia numa aldeia, num dado país, alguém que poderia ser considerado um rústico. Além disso o uso mais comum para este termo era designar um civil, alguém que não era um soldado. Já após o século IV, quando crucifixos deixavam de ser instrumentos de tortura e se tornavam ornamentos de templos, o termo paganus começou a ser utilizado entre os cristãos no Império Romano para se referir a uma pessoa que não era um cristão e que ainda acreditava nos antigos deuses romanos, os adeptos da “velha religião”, adorando Júpiter e Apolo em vez de Cristo. Há ainda quem afirme que, mantendo a distinção marcial, os cristãos referiam-se a si próprios como milites – soldados de Cristo – e chamavam os não-cristãos de pagani – os civis. Eventualmente, deixando os detalhes da origem de lado, a igreja cristã adotou o termo paganus como um termo eclesiástico usado para se referir a fiéis de qualquer religião que não sejam o cristianismo.

Agora, é engraçado que o livro sagrado desses cristãos seja a bíblia. No século V a Bíblia já estava sendo difundida pelo império cristão. E no livro do novo testamento – curiosamente o livro que diferenciava os novos cristãos dos antigos judeus – haviam mandamentos ditados, supostamente, pelo Cristo em pessoa, mandamentos como o que encontramos no evangelho de João 15:17:

E o meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, assim como Eu vos amei.

Bem, eu não sei como Jesus amou a seus apóstolos, mas a igreja parece acreditar que foi como um pai bêbado, abusivo, violento, desempregado, psicopata e com tendências sexuais devassas, porque assim que a religião do amor de Cristo se tornou a oficial, sua igreja criou uma máquina de morte e destruição que visava perseguir, torturar, matar e barbarizar a todos.

No próximo post dessa série, contamos como o cristianismo histórico, uma religião que prega o amor ao próximo, se tornou uma máquina de morte e intolerância. E se você quiser saber mais sobre a antiga tradição da bruxaria, antes do monoteísmo se tornar a doutrina predominante no mundo, A Arte dos Indomados, do bruxo e antropólogo Nicholaj de Mattos Frisvold, é uma excelente fonte, e pode ser comprado na loja da Penumbra Livros.

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