Ninguém Espera a Inquisição Espanhola!

Ninguém Espera a Inquisição Espanhola!

Por Laphroaig Al’Hazred

Começamos essa série sobre as origens da Bruxaria como a conhecemos hoje explicando como o cristianismo, uma religião que deveria ser de amor e tolerância universais, sempre foi responsável por demonizar a religião do outro – seja o outro quem for. Você pode continuar lendo a partir daqui ou começar do começo.

Meu nome é Cristo e meu mundo é fogo e sangue!

As primeiras perseguições da nova igreja não tiveram como alvo os pagãos, ao contrário do que muitos acreditam, mas sim os próprios cristãos. Nesse aspecto, talvez, eles mereçam respeito: antes de saírem moendo todo mundo, aperfeiçoaram suas técnicas com eles mesmos. Assim, depois de terem sido perseguidos pelos Judeus, pelos Romanos, pelos Persas, Pelos Godos e pelos Mulçumanos eles começaram a ser perseguidos pelos próprios cristãos, através da Inquisição.

A Inquisição eram tribunais criados pelo sistema jurídico da Igreja Católica Romana com o objetivo de combater tudo o que a Igreja considerasse heresia. Assim, já no século XII, estava caçando e julgando os Cátaros na França, os Bogomilos na Bulgária, os Valdenses em Lyon, os Henricianos, os Setianos, os Sabelianistas e outros irmãos em Cristo.

Os tribunais da Inquisição não eram permanentes, já que seu objetivo original era presidir em casos populares, evitando que o povo fizesse justiça com as próprias mãos. Eles eram instalados quando surgia algum caso de heresia, sendo depois desfeitos. Com o tempo, a moda se espalhou, e tribunais religiosos e outros métodos judiciários de combate à heresia começaram a ser utilizados pelas igrejas protestantes – nos países de maioria protestante houve perseguições contra católicos. E é aí que as coisas se misturaram, pois além de reformadores radicais, como os anabatistas, começaram a ser julgados também pessoas que supostamente praticavam bruxaria.

Sobre a Inquisição Espanhola, no século XV, afirmaram que

a perseguição levou a uma interminável caça às bruxas, completa com denunciantes pagos, vizinhos bisbilhoteiros e uma racista “limpieza de sangre”.

Judeus convertidos eram apanhados por intrigas e vestígios de prática mosaica: recusa de porco, toalhas lavadas às sextas-feiras, uma prece escutada à soslaia, frequência irregular à igreja, uma palavra mal ponderada. A higiene em si era uma causa de suspeita, e tomar banho era visto como uma prova de apostasia para marranos e muçulmanos. A frase “o acusado era conhecido por tomar banho” é uma frase comum nos registros da Inquisição. Sujidade herdada: “as pessoas limpas não têm de se lavar”.

Adeptos de Bruxaria, Graças a Deus!

Até o início do século XV uma bruxa era só mais uma pessoa na multidão. A própria prática da bruxaria havia se tornado uma prática cristã. Os protestantes, inspirados pelas 95 teses pregadas por Lutero nas portas da Catedral de Wittenberg em 1517, chegavam a afirmar que os Católicos praticavam bruxaria, e de fato praticavam. Era comum usarem objetos abençoados como forma de proteção para o gado, escreverem passagens da bíblia em pedaços de papéis e comê-los para se livrarem de doenças, furtar hóstias abençoadas para tentar atrair a pessoa amada ou causar a morte de amantes. Em um texto completamente cínico, agora o autor escreveria que para fugir dos olhos dos padres as bruxas se fizeram passar por mulheres cristãs, se utilizando de objetos sagrados para levar a cabo suas magias do mal sem serem perturbadas. Mas a verdade está longe disso.

Tenha em mente que o que chamamos de medicina é uma prática muito, MUITO recente, mal completando 200 anos. Seres humanos sempre buscaram formas de tratar males, curar doenças e ter ereções mais longas desde que o mundo era mundo. Muitas das pessoas que hoje associamos com práticas de bruxaria eram apenas pessoas que tinham um conhecimento extenso de ervas, de afrodisíacos e de abortivos. Durante a Idade Média essas pessoas competiam com a Igreja, já que os padres haviam tomado para si o dom de curar e tratar pessoas. Não faziam isso apenas com a fé e oração: tenha em mente que os primeiros monges destiladores buscavam fabricar álcool para tratar doentes, e não apenas para festejar os dias santos. É claro que haviam as pessoas que praticavam magia, mas elas não eram vistas como males a serem combatidos a qualquer custo. Para esse tipo de gente haviam sido criadas leis. Muitas leis europeias bastante antigas já traziam artigos punindo as práticas mágicas – como por exemplo a lei sálica, de Clóvis, ainda no século V, que prescrevia várias multas para essas práticas, especialmente as mortais. Nem todos que praticavam magia era bruxas, nem todas as bruxas praticavam magia.

Hoje a visão de Bruxaria como religião não é algo que espelhe as crenças do passado. Basta ver o gosto Wicca por deidades da era Helenista, ou as práticas de Stregga que muitos pagãos “clássicos” dizem seguir. Na verdade, o que chamam de religião pagã hoje é ainda mais nova e recente do que a medicina, mas não vamos nos adiantar ainda. Assim, quando a Inquisição pegou fogo, literalmente, muitas pessoas viram no mecanismo religioso uma forma de se livrarem de pessoas que, por um motivo ou por outro as incomodavam, e graças ao um dos maiores livros de horror do mundo elas conseguiram isso!

Mas esse livro – o Malleus Maleficarum, ou Martelo das Feiticeiras, é o assunto do nosso próximo texto.

Se você quiser saber mais sobre a dita “bruxaria” praticada antes da reinvenção monoteísta da expressão, e que persiste até hoje em algumas tradições, A Arte dos Indomados, do  é uma leitura mais do que recomendada. Você o encontra na loja da Penumbra Livros.

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