Os Quatro Pilares da Magia

Os Quatro Pilares da Magia

Por Vinicius Ferreira, editor da Penumbra Livros

Você possivelmente já ouviu falar das quatro palavras ou quatro verbos do mago, também chamados de Quatro Pilares da Magia: saber, ousar, querer e calar. Eles podem ser considerados conselhos genéricos de conduta para o magista. Funcionam como um proto-código de ética  e conduta para uma categoria que não possui uma associação de classe. Essas palavras estão presentes por toda parte na literatura de um passado não tão distante. Mas hoje em dia, embora sejam lembradas em um nível intelectual, elas vêm sendo cada vez menos praticadas. Será que o proto-código de ética dos magos está morrendo?

A Origem dos Quatro Pilares da Magia

Estas são as recomendações clássicas que se dá na Wicca e outras vertentes neopagãs, mas não surgiram há tão pouco tempo assim. Possivelmente sua popularização se deu pelo clássico Dogma e Ritual da Alta Magia, de Éliphas Lévi, que a maioria dos interessados no assunto já leu. Elas também aparecem nos escritos de Saint-Germain, embora não exatamente da mesma forma. E, como tudo que se preze no ocultismo moderno, sua origem pode datar de milênios atrás… no Egito, é claro.

Para chegar ao sanctum regnum, isto é, à ciência e ao poder dos magos, quatro coisas são indispensáveis: uma inteligência esclarecida pelo estudo, uma audácia que nada faz parar, uma vontade que nada quebra e uma discrição que nada pode corromper ou embebedar.

Saber, ousar, querer, calar – eis os quatro verbos do mago que estão escritos nas quatro formas simbólicas da esfinge.

Éliphas Lévi – Dogma e Ritual da Alta Magia, 21ª ed. Pensamento, 2017 – pp. 60-61.

As Partes da Esfinge

Tudo bem, você pode achar um pouco forçado afirmar que tudo veio do Egito. Eu também acho. Mas a comparação com a esfinge faz algum sentido.

A esfinge é composta de quatro partes: o boi, o leão, a águia e o ser humano. Considerando os arquétipos de cada um destes seres, não é difícil extrapolar os Quatro Pilares da Magia para os componentes da Esfinge. Por exemplo, a águia sabe, o leão ousa, o humano quer e o boi cala; isso, ou qualquer outra associação que você prefira.

E a esfinge, como já discutimos neste texto, é um signo que representa o ser humano e os diversos circuitos da consciência.

Considerando este ponto de vista, a frase de Crowley parece adequada:

A Esfinge é a divinização do bestial, e, portanto, um Hieróglifo adequado da Grande Obra.

Aleister Crowley – O Bagh-i-Muattar

É claro que os Quatro Pilares da Magia são adequados para resumir a Grande Obra. Mas será que estes pilares estão sendo levados a sério nos dias de hoje?

Saber

Embora aumentar a inteligência talvez seja uma aspiração um pouco distante, com nosso atual nível de tecnologia, existe uma coisa que podemos fazer para exercer o Saber do mago. De acordo com Lévi, este Saber pode ser resumido como “uma inteligência esclarecida pelo estudo”.

O estereótipo do mago de séculos passados era o de um velho senhor, no alto de uma torre de marfim, enfiado em tomos ancestrais de conhecimentos esquecidos, com um óculos fundo de garrafa na ponta do nariz, lendo à luz de velas. É evidente que ninguém espera que o mago contemporâneo se espelhe nessa imagem bizarra e anacrônica. Mas o oposto também não precisa ser verdadeiro.

Por exemplo, o que eu mais vejo por aí é gente preguiçosa. Se você já leu até este ponto do texto, que já passa da marca das 500 palavras, você provavelmente não é uma dessas pessoas, então não se sinta ofendido ou ofendida. Mas o mínimo que alguém que decide seguir o caminho da magia precisa fazer é… ler. É claro. Pode parecer tendencioso que eu, que trabalho em uma editora de livros de ocultismo, esteja falando que ler é importante. Mas pense por dois segundos e você verá que é óbvio.

É fundamental ler muito, ler coisas diferentes, contrastantes, conflitantes, contraditórias. É assim que você consegue o seu Saber. Vídeos rasos do Youtube (por mais que tenham 50 minutos de duração) não vão resolver o seu problema. Leia. Reflita. Questione. Discorde. Mas leia.

Ousar

Não adianta nada só ler, só estudar. Conhecimento teórico, sem uma contrapartida prática, não leva a lugar nenhum. Fazendo uma analogia bem idiota, pense em alguma coisa relativamente complexa que você sabe fazer. Dirigir um carro, jogar basquete, fazer sexo. Você acha que seria possível aprender alguma dessas coisas só lendo a respeito? É claro que não.

Talvez você de fato pratique magia – pratique mesmo, perca horas do seu dia, todos os dias, fazendo seus exercícios. Mas reflita comigo. Voltando a Lévi, ele descreve o Ousar como “uma audácia que nada faz parar”. O que é que você pratica? As mesmas fórmulas de sempre? O mesmo banimento que existe desde o século XIX? Os mesmos rituais da roda do ano, todos os anos? A mesma rotina caoísta de sigilo, servidor e masturbação? A mesma goetia clássica que o Rei Salomão (não) inventou?

Como você acha que é possível evoluir se ficar repetindo as mesmas coisas? Você tem medo de tentar algo novo? O que você espera – validação de pessoas mais experientes? Ou você simplesmente não tem ideias novas?

Algumas opiniões minhas:

  • Se você não tentar nada de novo, está fadado a virar um competente repetidor de fórmulas;
  • Você não precisa de validação de ninguém para fazer o que quer que seja;
  • Evite fazer bobagens, mas não fique paralisado pelo medo.

Se quiser um pouco de inspiração sobre isso, ouça este episódio do Magic(k)ando.

Querer

É engraçado. Todo mundo que está no caminho da magia já deve ter ouvido falar de Verdadeira Vontade, mas a maioria das pessoas não está nem aí para isso.

Eu mesmo não tenho muita moral para falar sobre isso. Eu não acredito em Verdadeira Vontade – não da forma como a doutrina Thelêmica apresenta este conceito, pelo menos. Mas eu acredito em vontade, que é diferente de desejo. Lévi descreve o Querer como “uma vontade que nada quebra”. E eu acho que a maioria dos simples desejos são coisas passageiras.

Veja bem, eu não vejo problema algum com usar a magia para conseguir coisas terrenas, materiais, efêmeras, etc. Nenhum falso moralismo aqui. Os principais motivos para se fazer magia, pelo que eu ouço as pessoas falando, são dinheiro e sexo.

O que eu acho é que você não precisa parar por aí. Se você for minimamente competente (competência esta que você conquistará exercitando seu Saber e seu Ousar), você vai conseguir essas coisas materiais com alguma facilidade. Não estou falando de ganhar na mega sena, nem de se curar magicamente de um câncer terminal. Mantenha os pés no chão. Coisas atingíveis são relativamente fáceis de se conquistar com magia bem-feita.

O que eu quero querer?

Mas se você pratica magia todo dia (sério, todo dia), você um dia vai chegar a um dilema. No primeiro dia, por exemplo, você faz uma operação para ganhar dinheiro. No segundo, para conseguir sexo. No terceiro, para conseguir fazer uma viagem. E assim por diante. No vigésimo terceiro dia, há grandes chances de que você precise pensar bastante em alguma coisa material que ainda não foi magicamente trabalhada. Neste ponto, você tem quatro opções:

  1. Passar uma hora e meia pensando e decidir fazer uma operação mágica elaboradíssima para encontrar aquele álbum de figurinhas da Copa de 1994;
  2. Decidir que vale mais a pena ir jogar videogame, já que tudo “que importa” já foi pedido;
  3. Reforçar intenções já trabalhadas;
  4. Pensar em um objetivo mais elevado.

A cada dia que passa, eu vejo menos gente praticando magia diariamente. E também vejo cada vez menos gente escolhendo a opção 4.

Se você não sabe o que você quer, além dos impulsos básicos do ser humano, você talvez esteja no caminho errado. Eu não tenho pretensão alguma de lhe dizer qual é o caminho certo. Só sugiro que pense nisso.

Calar

Essa é a mais complicada de todas. Em tempos de Facebook, o Calar é praticamente uma abstração. E que moral tenho eu para falar disso? Afinal de contas, estou aqui, publicando um texto para quem quiser ler, abrindo meu coração, falando as minhas opiniões sinceras sobre o tema. Eu participo de um podcast sobre magia. Meu sustento vem de lançar livros sobre o tema. Que moral tenho eu para falar do Calar?

Na minha opinião, não é disso que o Calar trata. Voltando a Lévi, sua definição desta virtude é “uma discrição que nada pode corromper ou embebedar”.

E veja bem: eu estou aqui falando abertamente sobre o tema, fazendo meu melhor para lançar um pouco de luz sobre temas que normalmente são tenebrosos e nebulosos. Mas não é exatamente isso que Lévi fazia, ainda no século XIX?

Para mim, há uma distinção clara entre “Calar” e “não tocar no assunto”. Por exemplo, eu estou aqui falando abertamente sobre o assunto. Mas você faz alguma ideia de qual entidade eu invoquei ontem? De qual foi o objetivo do meu último encantamento? De qual foi o resultado da minha última divinação?

A não ser que você seja muito bom em telepatia ou seja um espião que entra de vez em quando na minha casa para fuçar os meus diários (que são de papel), eu posso afirmar que não.

Calar, ontem e hoje

Calar, manter silêncio absoluto sobre o tema, já foi uma necessidade real no passado, quando magos e bruxas e feiticeiros e alquimistas (e até cientistas!) eram queimados na fogueira por serem o que eram. Hoje em dia, eu acredito que a necessidade de Calar está em manter “uma discrição que nada pode corromper ou embebedar”. E ser discreto é diferente de não tocar no assunto.

Nos fóruns e comunidades de Internet, o que eu menos vejo são pessoas sendo discretas. Todo mundo quer falar sobre tudo, e compartilhar suas experiências, antes mesmo que elas deem resultados, e querem validar seus métodos com outras pessoas que talvez saibam menos do que elas. E todo mundo tem uma opinião forte e incisiva sobre tudo. É isso que eu acho desnecessário. É essa postura que eu penso que deveria ser revista.

Compartilhar o que você está fazendo (não o que você já fez no passado remoto), antes mesmo que dê resultados, é uma boa forma de atrair inveja, descrença, e tudo que não presta para o seu trabalho. É mais um fator contribuindo para o seu fracasso. Quando você fala, não tem tempo de pensar. Quando você fala, você escuta uma resposta, que pode te tirar do caminho. Afinal, só você sabe qual é o caminho certo.

Você realmente precisa falar tanto, e com tanta gente? Um confidente é uma coisa; uma comunidade com milhares de pessoas é outra. Sugiro aqui um minuto de reflexão. Em silêncio, de preferência.

Os Quatro Pilares da Magia nos dias de hoje

Você pode atribuir a antiguidade que bem entender ao conceito dos Quatro Pilares da Magia – qualquer coisa entre o Egito antigo e o século XIX pode estar certa. Mas estamos no século XXI. Você acha que estes conceitos realmente se aplicam até hoje?

Faz sentido Saber, estudar profundamente o tema, sendo que há informação semidigerida facilmente acessível pela Internet?

Faz sentido Ousar, inventar novas metodologias, quando métodos testados e aprovados estão aí para quem quiser usá-los, com baixas chances de fracasso?

Faz sentido Querer, aspirar a coisas superiores, com tantos prazeres facilmente disponíveis ao seu alcance?

Faz sentido Calar, manter a discrição, se é tão divertido falar escancaradamente sobre o tema, e não corremos mais o risco de sermos queimados na fogueira?

As respostas a essas perguntas só você pode dar, pois elas são altamente individuais. Mas na minha opinião, se você acha que nada disso faz sentido, você ainda pode usar das técnicas mágicas e fazer delas um estilo de vida. Só não pode realmente aspirar à Grande Obra, pois todas essas quatro virtudes estão ligadas a ela. Até aí, sem problemas. A Grande Obra não é para todo mundo. E não é demérito nenhum que ela não seja para você. Divirta-se, seja feliz. Talvez essa seja a sua Grande Obra, no fim das contas. Só você pode dizer.

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