Magia Laranja

As Cores da Magia: Magia Laranja

Estamos quase chegando ao fim da nossa viagem cromática pelas diversas manifestações da magia. Já falamos da magia negra, da azul, da verde, da amarela e da violeta. Hoje é dia de falarmos da Magia Laranja.

Pensa Rápido!

A magia laranja está ligada diretamente ao aspecto mercurial da magia. Às vezes associamos esse espectro da magia com suas formas mais elevadas – a comunicação, a rapidez do pensamento, a própria magia. Hod, a sephira ligada a esse aspecto na árvore da vida, se relaciona com a forma que o intelecto dá às estruturas que existem nos planos mais elevados. É no plano de Hod que artistas e contadores de história, em suas diversas manifestações, conseguem dar forma a conceitos abstratos, usando suas narrativas ou representações – sejam visuais, sonoras, ou em qualquer outro formato. Do outro lado, na árvore do conhecimento, temos Samael, com seu conhecimento proibido.

É claro que tudo isso é muito bonito e muito elevado, e está obviamente ligado aos aspectos mercuriais, mas não é disso que trata a magia laranja. O cerne da magia laranja é a velocidade do pensamento.

O Mago Charlatão

Talvez você já tenha prestado atenção no arcano I do Tarô. Hoje em dia o conhecemos como “O Mago”, mas nem sempre foi assim. Até mesmo alguns baralhos muito comuns até hoje, como o Tarô de Marselha, chamavam essa carta de outros nomes. Um desses nomes é “Le Bateleur” – um artista itinerante que se apresenta em locais públicos realizando proezas e acrobacias.

Se você olhar para a imagem dessa carta, vai ver que não temos aí um mago de verdade, e sim um desses caras que montam uma banca na praça da cidade e fazem o truque dos copinhos em troca de moedas. No tarô de Rider-Waite, a mesa parece menos improvisada, o “mago” parece um tanto mais sério, mas ainda temos os mesmos elementos básicos. Prepare-se, a qualquer momento, para ver um coelho saindo de uma cartola.

Pode parecer que esse tipo de charlatanismo não possa ser considerado magia, e que não é mercurial o suficiente. Mas é exatamente disso que trata a magia laranja. Fazer esse tipo de truque, em praça pública, tomando o dinheiro dos cidadãos de bem, e ainda ser considerado uma atração, e não uma ameaça, exige um certo conjunto de habilidades. Prestidigitação? Provavelmente. Mas, acima de tudo, velocidade de pensamento.

Le Bateleur

Le Bateleur no Tarô de Marselha

Vivendo no Limite

Várias profissões dependem de rapidez de pensamento, capacidade de enganação e dissimulação, da mesma forma que o “mago” de rua. Médicos, ladrões, políticos, pilotos, jogadores de cassino, corretores de ações, vendedores, advogados… É impossível ter sucesso em qualquer uma dessas profissões sem um certo grau de proficiência em magia laranja. E é claro, isso pode ocorrer de forma consciente ou não.

Esses profissionais bem-sucedidos têm uma coisa em comum. Eles normalmente não pensam demais sobre o que estão fazendo. A necessidade de tomar decisões corretas em frações de segundos não permite consulta deliberada e exaustiva ao enorme cabedal de informações que esse profissional provavelmente possui. A ideia não é que essas pessoas façam as coisas de qualquer jeito – elas apenas não perdem mais tempo do que o necessário pensando sobre o que fazer. Em vez disso, deixam o subconsciente tomar as decisões. E, frequentemente, as decisões do subconsciente (apoiadas, é lógico, por conhecimento previamente adquiridos) são as mais acertadas.

A Gnose da Magia Laranja

O truque para a gnose da magia laranja está em propiciar as condições para que o subconsciente possa falar mais alto do que o consciente. Meditação, concentração, ritmos lentos e repetitivos não são boas formas de acender essa chama no operador. As melhores formas são excitatórias, e envolvem uma tensão mental.

A adrenalina de pilotar um carro de corrida em alta velocidade, o risco de perder grandes quantias de dinheiro em uma única mão de cartas, a ansiedade de decidir rápido qual procedimento tomar em uma cirurgia – todas essas formas são igualmente válidas para atingir a gnose da magia laranja.

Mas às vezes pode ser difícil, em um ambiente ritualístico, reproduzir essas emoções tão reais. Uma forma de contornar essa situação é usando práticas que estimulem o pensamento rápido. Acelerar o raciocínio matemático, geométrico ou lógico, demandando respostas rápidas para perguntas difíceis, é um método muito eficaz. Com ajuda de um assistente, fica mais fácil ainda estimular outras formas de raciocínio – por exemplo, com jogos rápidos de perguntas e respostas.

Operações de Magia Laranja

A principal finalidade da magia laranja é obter, para si, a velocidade de raciocínio inerente a esse aspecto. Isso pode ter aplicações seculares – por exemplo, antes de fazer uma prova ou participar de uma entrevista de emprego – ou mágicas. Essa rapidez mental pode ser útil para lançar certos tipos de encantamento, ou para estabelecer contato com inteligências maiores do que estamos acostumados a lidar.

E, para conseguir esse tipo de habilidade, a melhor operação mágica é, de longe, a invocação. Entre as entidades comumente invocadas para esses fins estão os clássicos deuses mercuriais, como por exemplo Hermes, Loki ou Thoth. Mas dentro do moderno conceito de pop magick, outras entidades mais contemporâneas são igualmente válidas, como o Flash, ou até mesmo J. R. “Bob” Dobbs. (Esse último é uma figura venerada na Igreja do Subgênio, uma religião levemente aparentada com o Discordianismo).

É claro que não há consenso sobre isso, mas é geralmente desaconselhado usar magia laranja para tentar ganhar dinheiro fácil. É claro que você pode tentar ganhar dinheiro – mas esqueça a parte do “fácil”. Abusar da adrenalina para forçar o subconsciente a tomar decisões é razoável. Mas é fácil se empolgar com a facilidade das coisas. Nessas horas, é comum que não haja uma decisão correta para o subconsciente tomar. E as coisas começam a dar errado nesse ponto.

O melhor conselho é trabalhar com uma combinação de fatores: tentar afetar as circunstâncias, para que elas sejam as mais favoráveis possíveis, e só então usar do raciocínio intuitivo e acelerado pela magia laranja para deixar a mente fluir naturalmente com o fluxo das coisas.

J. R. "Bob" Dobbs

J. R. “Bob” Dobbs

 

O esquema das cores da magia é descrito em maiores detalhes no Liber Kaos, o segundo livro de Peter J. Carroll (ainda não lançado no Brasil). Mas se você se interessou pelos conceitos gerais aqui apresentados, uma boa introdução ao tema é o Liber Null e Psiconauta. E se quiser saber mais sobre o Discordianismo, a religião prima da Igreja do Subgênio, o Principia Discordia é a melhor fonte para você. Os dois livros estão disponíveis na loja da Penumbra, e nas grandes livrarias.

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