A hipocrisia natalina brasileira

Este é um texto de opinião sobre a hipocrisia brasileira. 

Falta Cristo no Natal?

Alguns cristãos reclamam que o principal símbolo do Natal foi substituído pelo consumismo imediatista. Este não é um texto com o mesmo conteúdo repetitivo de final de ano. De fato, todo mundo esquece o nascimento do Salvador da humanidade na hora do amigo oculto, na esperança de que não seja mais um par de meias embrulhado bonitinho.

Em primeiro lugar, os Cristãos não reconhecem que ninguém sabe ao certo quando Jesus Cristo teria nascido, se é que ele de fato existiu. Se formos nos basear na Bíblia, não há qualquer indicação nas escrituras que tenha sido dia 25 de Dezembro.

Pode-se argumentar que é apenas uma data simbólica. Mas será que a escolha pelo dia 25 de Dezembro foi meramente aleatória ou tem de fato um significado um tanto mais profundo? O Natal é celebrado justamente no auge do solstício de inverno, época de grandes festividades pagãs. E por pagãs estamos considerando todas as não cristãs.

O cristianismo copiou muitos símbolos pagãos, por medo de represália ou por não conseguir eliminar os costumes já enraizados na sociedade. Vejamos a Saturnália, por exemplo, festividade comum na Roma Antiga em que Saturno era louvado. O cristianismo roubou dela até mesmo a caridade presente nesta época. Sim, você provavelmente já ouviu que o significado do cristianismo é caridade.

Amor Cristão?

Na Saturnália, todas as pessoas eram tratadas como iguais. Era muito comum que senhores servissem pessoas escravizadas durante o banquete. Costume, aliás, rompido nos dias de hoje. Muitas famílias, descendentes de escravocratas brasileiros, mantém seus empregados no trabalho para servir a ceia farta.

Os serviçais atuais deixam suas famílias de lado para agradarem seus senhores ultramodernos, mas que por um algum motivo obscuro não conseguem sequer usar um microondas para esquentar o peru. Os senhores se sentem caridosos o suficiente por lhes darem as sobras de suas ceias e os presentearem com roupas e brinquedos até mesmo já usados ou repassados.

Outro costume copiado é a troca de presentes. Durante a Saturnália, era comum visitar a família e presenteá-la com sigillaria, usualmente pequenas figuras de prata. Hoje em dia, o mercado vibra com eventos grandes como a Black Friday, usados para o consumo. Lojistas ficam em pé longas horas para bater metas inalcançáveis. Chegam em casa exaustos.

Na Roma antiga, o dever cívico desta época era justamente não trabalhar.

Que ninguém tenha atividades públicas nem privadas durante as festas, salvo no que se refere aos jogos, as diversões e ao prazer. Apenas os cozinheiros e pasteleiros podem trabalhar. Que todos tenham igualdade de direitos, os escravos e os livres, os pobres e os ricos. Não se permite a ninguém enfadar-se, estar de mal humor ou fazer ameaças. Não se permitem as auditorias de contas. A ninguém se permite inspecionar ou registrar a roupa durante os dias de festas, nem depor, nem preparar discursos, nem fazer leituras públicas, exceto se são jocosos e graciosos, que produzem zombarias e entretenimentos.

 

Luciano Toboso

Quando se fala em Saturnália, é comum ressaltar as festas e as orgias praticadas por pagãos. Retratam este fato como uma anomalia social. Mas eram as orgias que de fato deixavam as festividades mais excitantes. Hoje muita gente visita seus familiares por imposição social, aguenta as mesmas piadas do tio do pavê de sempre, a reclamação da avó de que ninguém se lembra de Jesus Cristo, as trocas de presentes sem-graça e passas na comida.

É por isso que este ano, quando me chamaram para ir a uma festa de Saturnália aos antigos moldes pagãos, eu resolvi abraçar de vez a ideia. Fica a dica para o seu próximo ano! Então, a meu ver, talvez de fato falta Jesus na ceia porque ele nunca foi realmente convidado.

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