Incubação: a Técnica Esquecida dos Sonhos

Incubação: A Técnica Esquecida dos Sonhos

Mesmo que nem todo mundo perceba esse fato, sonhar é uma técnica mágica poderosa e acessível a todos. Mesmo uma pessoa sem treinamento pode, em seus sonhos, perceber verdades que lhe são desconhecidas, conhecer lugares nunca antes visitados, prever fatos que ainda não ocorreram, estabelecer contato com outras pessoas ou entidades, e até mesmo afetar a realidade objetiva. Quando usados deliberadamente, como ferramentas mágicas, os sonhos têm um potencial quase inalcançável por outras técnicas aplicadas em estados despertos de consciência. Hoje em dia fala-se muito sobre sonhos lúcidos, uma técnica mágica poderosa que envolve a capacidade de controlar os próprios sonhos. Mas a incubação, uma outra técnica de grande importância na antiguidade, está praticamente esquecida.

O Que É Incubação

Em poucas palavras, a incubação é um método de cura através dos sonhos. Em seus primórdios na antiguidade, era uma prática religiosa – mas olhando por um prisma mais atual, é possível considerá-la uma técnica mágica.

A incubação é feita de forma diferente em cada contexto cultural, mas um ponto se mantém. A pessoa que busca a cura pelos sonhos precisa dormir em um local sagrado. Os sonhos recebidos neste local podem ou curar a pessoa de vez ou conter uma receita para a cura.

Cura, neste contexto, pode se aplicar a aflições do corpo ou da alma. Através da incubação é possível curar tanto doenças e ferimentos quanto problemas mais intangíveis e psicológicos. Além de curar enfermidades, também é possível encontrar soluções para problemas diversos, insolucionáveis pela análise enviesada da mente desperta.

Incubação na Antiguidade

A incubação era prática corrente em diversas culturas da antiguidade, dentre as quais se destacam a civilização helênica e a hebraica. Há diversos relatos dessa prática na Bíblia, e o mais famoso deles é o próprio Apocalipse de São João. Todo o relato do Apocalipse pode ser visto como uma visão onírica de João, que foi à ilha de Patmos para dormir e ter uma Revelação em seus sonhos.

Mas a incubação era também o rito principal do Culto de Asclépio, na Grécia antiga.

Asclépio era um deus ligado à medicina e à cura. Os enfermos se dirigiam a um de seus templos para receberem curas através de seus sonhos. O processo começava com uma purificação ritual, que era seguida por uma série de oferendas ou sacrifícios a Asclépio. O ponto culminante da incubação, no entanto, era o próprio sonho.

O local do templo onde se dormia era populado por diversas cobras sem veneno. A exemplo da dos oráculos da antiguidade, no culto de Asclépio as cobras eram associadas às capacidades de sonho e de cura. Os fiéis dormiam nessa área, em meio a cobras e a outros fieis, todos com o mesmo propósito. Ao acordarem, relatavam seus sonhos aos sacerdotes. Estes cumpriam a parte que não cabia aos populares – decifrar a cura que foi prescrita na linguagem confusa dos sonhos e traduzi-la para os enfermos.

Praticando a Incubação Hoje

A prática da incubação pode ter caído no esquecimento ao longo do tempo, mas não quer dizer que tenha perdido seu poder. Na verdade, ela continua exatamente tão eficiente quanto sempre foi. A diferença é que precisamos redescobri-la.

A incubação é uma arte de cura mágica que foi esquecida por nossa cultura.

 

Peter Grey – Bruxaria Apocalíptica, pp. 39-40

Para praticar a incubação nos dias de hoje, é preciso adaptar os principais elementos.

Locais Sagrados

A não ser que você more na Grécia, há poucas chances de que haja um templo de Asclépio perto de você. E menos chances ainda de que, caso haja um desses, você possa dormir dentro dele sem infringir alguma lei. Portanto, a primeira dica é: procure dormir em um lugar que seja sagrado para você. Nem que você tenha que fazer com que este lugar seja sagrado somente pela duração do seu rito – como, por exemplo, montando um templo provisório.

Lembrando dos Sonhos

O segundo aspecto que precisa ser considerado é a memória. Hoje em dia nós (como sociedade) damos cada vez menos importância para os sonhos, e muitas vezes não nos lembramos deles. A prática do diário de sonhos, advogada e defendida por inúmeras correntes mágicas, é uma ferramenta poderosa para evitar que o sonho e a revelação sejam esquecidos ao acordar no dia seguinte.

Interpretando as Visões

Na antiguidade, cabia a um sacerdote decifrar os significados ocultos que poderiam estar escondidos nos sonhos. Atualmente, sacerdotes de Asclépio estão cada vez mais difíceis de se encontrar por aí. E por isso é importante que nós mesmos sejamos capazes de decifrar os nossos sonhos.

Não existe fórmula precisa para conquistar essa habilidade. Ter um bom vocabulário simbólico e praticar essas interpretações no dia a dia, e não apenas no momento da incubação, são dicas úteis para desenvolver essa técnica.

Em último caso, recorrer a alguém que possa te ajudar com a interpretação pode ser uma opção. Mas quando se trata de algo tão pessoal quanto sonhos, nada supera interpretar os seus próprios.

Dar Importância aos Sonhos

Por último, mas não menos importante, há uma questão de postura. Nós, filhos dos séculos XX e XXI, fomos criados em uma cultura massificada, na qual o sonho não recebe o valor merecido. Para usar sonhos como ferramenta mágica, ou religiosa, é de fundamental importância levar os sonhos a sério.

(…) o primeiro passo neste processo de nossa recuperação é dar um grande valor ao sonho, algo que essa cultura negou. O sonho privado foi substituído por uma arena onírica pública de símbolos populares, uma arena em que o próprio sonho se ausentou. À aventura noturna no sono não se dá valor, e nem a nenhum de nossos estados liminares. Devanear é proibido, buscar visões é psicose.

 

Peter Grey – Bruxaria Apocalíptica, p. 39

Peter Grey, em Bruxaria Apocalíptica, nos traz formas de praticar a antiga arte da bruxaria no cenário atual. E a primeira coisa que se deve fazer nessa busca é dar aos sonhos o valor que eles merecem.

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