O Diabo na Encruzilhada

O Diabo na Encruzilhada

Você sabe como Robert Johnson, um dos maiores músicos de blues da história, aprendeu a tocar seu violão? Ele foi para uma encruzilhada um pouco antes da meia noite com seu instrumento, cavou uma cova, e lá esperou. Um grande homem negro apareceu, tomou dele o instrumento, tocou uma música de trás para frente, e devolveu o violão para Robert. Depois disso, Robert Johnson mudou completamente sua forma de tocar. Conseguiu fama e mulheres. Foi o maior músico de seu tempo. Mas isso não veio de graça. Robert morreu prematuramente, aos 27 anos (mesma idade de Jimi Hendrix, Kurt Cobain, Amy Winehouse e vários outros músicos). Seu corpo foi encontrado numa encruzilhada.

A trajetória de sucesso de Robert Johnson começa na encruzilhada, quando ele faz um acordo tácito com o Diabo. E termina na encruzilhada, com uma morte por envenenamento em circunstâncias misteriosas.

A mística das encruzilhadas está em toda parte. É nas encruzilhadas que os despachos são feitos. A encruzilhada está presente até onde menos se espera – um exemplo é a cruz dos cristãos. Mas se é apenas um cruzamento de dois caminhos, de onde vem todo esse fascínio?

A Mecânica da Encruzilhada

Quando você anda por uma rua perfeitamente reta, não precisa pensar muito a respeito do caminho a seguir. Quando a rua faz uma curva, você segue a curva. Mas quando a rua se bifurca, ou é atravessada por uma outra, você tem uma escolha a fazer. Você pode até saber o caminho que quer seguir, e não parar para pensar na escolha. Mas a escolha está lá. Na encruzilhada.

É na encruzilhada onde ganhamos tudo ou perdemos tudo, e é natural que seja exatamente na encruzilhada que ganhemos perspectiva. Este é o local da escolha e de moradia de espíritos, diz-se que eles são traiçoeiros e pouco fiáveis, e é claro, este é o local onde encontramos o Diabo.

 

Nicholaj de Mattos Frisvold, em A Arte dos Indomados

Os Espíritos da Encruzilhada

Nosso cérebro é programado para rejeitar mudanças. “Em time que está ganhando não se mexe.” É uma questão de sobrevivência. Se fosse da natureza humana abraçar a mudança, nunca teríamos prosperado como espécie. Mas é a mudança que faz com que evoluamos. Sair da zona de conforto é necessário. Navegar é preciso.

No decorrer da nossa vida, passamos muito tempo andando em linha reta, sem nem cogitar a possibilidade de nos desviarmos do caminho. Isso só pode acontecer nas encruzilhadas, e é quase sempre perigoso. E o Diabo está sempre na encruzilhada, esperando para nos conduzir por esses caminhos perigosos e desconhecidos. Que podem ser bons ou ruins para nós. Mas trazem, com certeza, uma coisa: mudança.

A má fama do Diabo se origina dessa aversão à mudança que está no nosso instinto. Todos os outros espíritos, deuses e entidades associados à encruzilhada são temidos. É o caso de Legba, o abridor de caminhos, e Baron Samedi. E de Exu, Senhor das Encruzilhadas. E Janus e Hécate, que com suas faces múltiplas verdadeiramente antropomorfizam a essência da encruzilhada.

Os Trapaceiros na Encruzilhada

Mas o nosso medo ancestral de mudança tem algum fundamento. Seguindo com a analogia do caminho, pode não ser uma boa ideia pegar caminhos alternativos em toda encruzilhada que aparecer. Ao fazer isso, é muito fácil se perder, e é quase certo não chegar a lugar nenhum.

Mas as entidades das encruzilhadas não estão lá só para abrir novos caminhos. Eles (Legba, Hécate, etc.) também pode agir como conselheiros, dando orientações sobre o melhor caminho a se tomar. O mero ato de considerar a possibilidade de seguir um novo caminho já é um exercício extremamente benéfico.

 

Se você quiser saber mais sobre encruzilhadas e suas implicações para a magia, A Arte dos Indomados, de Nicholaj de Mattos Frisvold, traz uma discussão bastante completa sobre o tema, e apresenta métodos para escolher novos caminhos na próxima encruzilhada que você encontrar. Esse lançamento está disponível, em português, na loja da Penumbra Livros.

 

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Shaitan, O Opositor

 

Arte: Robert Crumb

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