Música e Magia, Parte 3

Música e Magia, Parte III: Polifonia, Instrumentos Estranhos e Renascimento

Texto por Tiago de Lima Castro

Nessa série sobre a influência da música na magia do ocidente, já vimos como a música era indistinta de magia na Grécia antiga e como ela passou a ser adorada e demonizada durante a idade média. Hoje abordaremos alguns aspectos que mudaram para sempre a música ocidental e sua relação com a magia: a introdução da polifonia, dos instrumentos mouros e o movimento renascentista.

Polifonia: Mudando as Regras do Jogo

Ao final do século IX, emerge uma nova prática musical: a polifonia, ou seja, a prática de cantar diferentes melodias simultaneamente. Isso provocará problemas práticos e teóricos; os práticos pelos novos problemas com afinação e de processos compositivos, e os teóricos devido à teoria vigente funcionar para pensar uma única melodia sem acompanhamento. Vejam, mesmo que haja práticas corais, como no canto gregoriano, todos cantam exatamente a mesma melodia, e as novas práticas propõe cantar melodias diferentes simultaneamente. Tais práticas atraem fiéis às missas, além questões sobre tais práticas, pois se são belas devem expressar a verdade e o bem, baseado na antiga tríade platônica assimilada por Agostinho como belo, bem e verdade. Mas e se tal beleza estiver desviando a música de sua finalidade mística para uma finalidade puramente sensual? O experimentalismo dos compositores, principalmente na renascença, chegando a cantar textos diferentes simultaneamente por exemplo, auxiliará a criar dúvidas e questões. Contudo, resistiremos à tentação de nos desviar do tema do texto.

A Influência dos Mouros

A reconquista dos territórios ibéricos trouxe uma tradição musical de origem moura e serfradita, com instrumentos como pandeiro e alaúde, e práticas musicais diversas. Os mouros, além de uma tradição místico-musical própria, também especulavam sobre esta utilizando-se de teorias pitagóricas. As canções serfraditas foram a base da prática musical dos trovadores. O ocidente sempre se alimenta de práticas e conhecimentos de outros povos, tratando, contudo, de apagar tal influência em suas narrativas históricas.

Junto a estas novas práticas polifônicas e de trovadores, textos da antiguidade clássica foram redescobertos nos territórios ibéricos, além do retorno da troca de documentos com bizantinos. Isso gestou o renascimento. O renascimento é visto como uma ascensão da razão em face do obscurantismo medieval devido ao reavivamento do pensamento platônico entre os intelectuais, ainda que tal visão seja um tanto romantizada.

Entra Hermes Trismegisto

O padre Marsílio Ficino traduziu Platão do grego para o latim, disponibilizando sua obra, através do mecenato dos Médici. Porém, fará o mesmo com os neoplatônicos e o Corpus Hermeticum, os textos atribuídos a Hermes Trimegistro, provavelmente do século IV, de forma que seu neoplatonismo estava embebecido do hermetismo, sendo este o neoplatonismo dominante no pensamento renascentista. Dessa maneira, Ficino definirá o Mago – amigo leitor, por mais estranho que pareça, o padre Ficino utilizou especificamente este termo – como o homem-Deus, homem espiritual, sendo este o ideal que deve ser alcançado através dos estudos e das práticas, de cunho cristão, hermético e neoplatônico. Quais disciplinas o Mago deveria dominar? Para Ficino, esse processo ascético se dá no pleno domínio, e não somente um conhecimento ou prática superficiais, da literatura, medicina, música, arte, filosofia e teologia. Antes de Leonardo da Vinci ser tido como o modelo de renascentista, tal modelo se une à ideia de Mago em Ficino. Ele chegou a ser indiciado por práticas de necromancia em sua Nova Academia, mas nada fora efetivamente comprovado. Contudo, os estudos de hermetismo que perpassam todas as escolas esotéricas posteriores se dão graças à tradução de Ficino e, provavelmente, com influência de sua interpretação destes. Diga-se de passagem que é uma pena que o Corpus Hermeticum não esteja todo disponível em português, e nem os escritos de Ficino sobre este.

Magia Musical nas Cortes Renascentistas

A valorização da música pelos Médici, que influenciará a Europa como um todo, se dá numa concepção mágica e médica da música, pelas propriedades desta como proposto por Ficino e outros teóricos italianos, como Lorenzo Giacomini Tebalducci Malespini. A ação mágica da música, propiciando melhor saúde física, mental e espiritual, influirá sobre todas as cortes e na valoração das práticas musicais. Este contexto é que propiciará o surgimento da ópera, já que esta ressuscitaria as práticas místicas da tragédia grega, originalmente encenadas em festivais a Dionísio, propiciando a catarse dos humores deletérios, aquelas que a medicina da época considerava os constituintes da fisiologia humana. Dessa forma, a concepção mágica da música foi um dos motivos que impulsionou sua prática nas cortes.

Os teóricos musicais não usavam o termo mágico. Porém, se lermos Gioseffo Zarlino, o qual defendeu a racionalidade do processo de composição musical, sendo que o termo sujeito do contraponto que ele propôs é utilizado ainda em nossos dias, verificamos que ele parte de uma análise da relação dos números com a natureza, em uma releitura de Boécio, para a partir daí discutir a natureza numérica do som e dos processos de composição musical. Ainda defendendo ideias boecianas, fica evidente que a música afeta a alma e o corpo humano, e pode ser analisada efetivamente por suas relações numéricas internas. A ausência do termo magia se dá pelo cunho pejorativo deste, já que Zarlino está defendendo as novas práticas musicais dentro da Igreja Católica no complexo contexto da contrarreforma.

O próprio Lutero teve grande preocupação com as estruturas harmônicas da música religiosa, como mestre da capela que também era. Afinal, a música deveria ser meio de religação a Deus e nisso, as estruturas contrapontísticas deveriam exprimir os afetos propostos pelos textos cantados e propiciar sua compreensão.

Música e a Astronomia Moderna

No desenvolvimento da ciência moderna, esta estava diretamente ligada à música. Como dito acima, as experiências astronômicas tinham argumentações musicais. Um exemplo era o problema de utilizar números irracionais em cálculos astronômicos, pois se não são racionais e estão na natureza, então a razão é incapaz de apreender na natureza ou a própria criação em si não é racional. Contudo, as práticas polifônicas levaram a modificações nos processos de afinação, de forma a terem base em números irracionais, e mesmo assim são belas. Lembrando da tríade platônica ainda existente, do belo, bem e verdade, se a música produzida por números irracionais é bela, então estes números irracionais são verdadeiros e estão na natureza, podendo, portanto, ser aplicados ao estudo da astronomia. Por isso ideias como a música das esferas, que retornou com vigor após Kepler, foi tão importante para a ciência. De forma que ainda a ordem cósmica é vista como música, a qual se for imitada pela música que produzimos permite a simpatia com a própria ordem das coisas. Se quiser se aprofundar neste assunto, recomendo as obras Quantifying Music: The Science of Music at the First Stage of the Scientific Revolution, de Hendrik Florence Cohen, e Music and the Making of the Modern Science, de Peter Pesic, ambos historiadores da ciência.

Na próxima parte desta série, falaremos sobre como os músicos conseguiram se libertar do mecenato renascentista e como a música influenciou o pensamento oculto nos últimos séculos.

Tiago de Lima Castro é professor de filosofia e música, ou seja, um doido que abraçou sua ignorância. É articulista do Música e Sociedade e tem um podcast sobre música, filosofia e outras loucuras. Acompanhe Tiago nestes links: Twitter / TianixPodcast / Música e Sociedade

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