Eliphas Levi: Um Mago Socialista?


Eliphas Levi foi um dos grandes magos que já passaram por essa terra. O conhecimento e o entendimento que temos hoje do ocultismo se devem em grande parte à sua obra. Não que ele tenha sido um autor revolucionário ou criado uma vertente de magia completamente inovadora. Mas foi responsável por sistematizar e difundir muitos dos atuais conceitos que permeiam todo o ocultismo ocidental. Além de mago, Levi foi também seminarista, socialista, cabalista, e vários outros istas. Vale a pena conhecer um pouco sobre sua vida para entender melhor sua obra.

Alphonse, O Seminarista

Eliphas Levi seria um nome um tanto pitoresco para um típico parisiense do século XIX. E, de fato, não era esse o nome de batismo de Eliphas Levi. Ele recebeu o nome Alphonse Louis Constant ao nascer, em 1810. Eliphas Levi foi a forma como, anos mais tarde, ele traduziu seu nome para o hebraico. A presença ou ausência de acentos (Éliphas Lévi, etc.) depende da forma como o hebraico é transposto para nosso alfabeto.

Ao ler qualquer livro de Eliphas Levi é inevitável reparar o conhecimento enciclopédico que ele tem da Bíblia e da doutrina cristã em geral. Isso não é à toa: Levi (na época, ainda Alphonse) chegou a ser seminarista, e durante este período acumulou muitos conhecimentos que talvez não conseguisse acumular de outra forma. Mas, sendo um espírito livre, não conseguiu viver sob o peso das restrições da vida religiosa. Se apaixonou por uma jovem e logo saiu do seminário.

Socialismo Radical, Mas Não Tão Socialista

Livre do ensino religioso, Levi se “bandeou” com os artistas e intelectuais parisienses da primeira metade do século XIX. Logo passou a adotar e divulgar uma visão política curiosa: o Socialismo Radical.

Nossa visão atual de socialismo é influenciada pelos acontecimentos do começo do século XX. Mas o socialismo de Levi era diferente. Para começo de conversa, esse “socialismo” apoiava a figura do Imperador. (Sim.) Em segundo lugar, era pesadamente influenciado pela religião. Levi chamava sua visão de socialismo de “comunismo neocatólico”.

Depois de ter sido preso por causa de seus escritos revolucionários e de ver que a revolução da França em 1848 (não confundir com a Revolução Francesa) não foi nada bonita, Levi decidiu que o Socialismo Radical não era tão interessante assim.

Sua nova visão política considerava que o povo não tinha condição de se comandar. As massas precisavam de orientação. A melhor solução seria a formação de uma elite iniciada para conduzir a humanidade à emancipação. Um discurso deveras perigoso, mas que fez Levi correr atrás de se tornar um desses iniciados.

Iniciação ao Ocultismo

Depois de deixar o estudo religioso e a militância política em segundo plano, Levi começou a se interessar mais pelo oculto. De onde veio sua iniciação nos mistérios ocultos é um tanto incerto, mas há quem diga que ele foi iniciado pelo filósofo polonês Józef Maria Hoene-Wroński.

Curiosamente, Levi aparentemente só veio a ter experiências práticas com magia em 1854, aos 44 anos. Até então, seu conhecimento se limitava à investigação teórica.

Apesar da organização Thelêmica conhecida hoje como A∴A∴ não existir na época de Levi, seus membros e defensores clamam que essa Fraternidade Branca apenas muda de forma ao longo dos séculos. Eliphas Levi foi retratado como um iniciado desta Ordem, mas o seu grau de iniciação é questionável.

Aleister Crowley, por exemplo, dizia que Levi ocupava o grau 6°=5. Kenneth Grant, por outro lado, o colocava ao lado de Blavatsky, no grau 8°=3.

De qualquer forma, os escritos de Levi demonstram uma grande erudição nos mistérios do ocultismo. Mas sua visão de que as massas não teriam capacidade de se conduzir fazia com que Levi mantivesse o conhecimento oculto… oculto.

Lévi deliberadamente escondia seu conhecimento e desencaminhava seus leitores com deturpações.

 

Kenneth Grant – O Renascer da Magia, p. 120

A Ciência Universal de Eliphas Levi

Eliphas Levi construiu e sistematizou uma abordagem da magia com base na ciência de seu tempo. Ele acreditava que a magia consistia das leis ocultas do universo, e que sistematizá-la era o mesmo que definir as bases de uma ciência universal.

Lendo hoje as obras de Eliphas Levi, podemos ter a ilusão de que ele era excessivamente influenciado pelo cristianismo. Mas na verdade, em seu tempo, sua visão sobre o cristianismo era extremamente revolucionária, assim como sua visão política. Nicholaj de Mattos Frisvold, em A Arte dos Indomados, define muito bem a verdadeira busca de homens como Levi:

Nomes como  (…) Eliphas Levi (…) carregam uma solene aura de iconoclastia eclesiástica e de taumaturgias de natureza radical. Em dias posteriores (…) observando este cenário em perspectiva, parecem ser homens em uma busca destemida pela gnose, que trilhavam por meio das formas mais radicais e extremas rumo à comunhão com Deus, chocando o ambiente religioso e os ocultistas já estabelecidos.

 

Nicholaj de Mattos Frisvold – A Arte dos Indomados, p. 190

A Influência de Eliphas Levi: Tarô, Cabala e Baphomet

Baphomet de Eliphas Levi

Eliphas Levi faleceu em 1875, mas seus escritos (fossem ou não deliberadamente enganosos), ao lado dos de Blavatsky, deixaram uma base importante para a construção do ocultismo como o conhecemos hoje em dia.

Levi acreditava que o Tarô e a Cabala serviam como base para explicar todos os aspectos do ocultismo e os mistérios do catolicismo (a seu ver, a crença mais correta, mesmo que não da forma propagada pela religião organizada). Sua visão do Tarô como ferramenta para interpretar a realidade é o provável motivo para que hoje o Tarô seja tanto mais do que um simples oráculo.

Seus escritos serviram, em grande parte, como base para o sistema da Golden Dawn (Aurora Dourada). Consequentemente, foram uma grande influência para Aleister Crowley e todos os principais ocultistas do século XX em diante.

Além disso, sua clássica ilustração e descrição de Baphomet afetaram o imaginário de inúmeros ocultistas e magistas, e continuam sendo extremamente influentes até hoje. A imagem de Baphomet gravada no olho da mente da maioria dos estudiosos do ocultismo, até os dias de hoje, é certamente a imagem retratada por Levi, ou fortemente baseada na mesma.

O Livro de Baphomet, de Julian Vayne e Nikki Wyrd, expande a visão de Levi sobre Baphomet, mostrando de onde ela se originou e o que ela realmente significa.

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