Lupercalia – O Festival dos Lobos


Um festival que acontece entre fevereiro e março, no qual pessoas se fantasiam e saem enlouquecidas pela cidade, e as taxas de natalidade aumentam subitamente. Talvez você esteja pensando no Carnaval. Mas nós estamos falando da Lupercalia.

Lobos em Roma

O mito da criação de Roma começa com lobos. Com uma loba, mais precisamente.

Essa história antecede a do menino Mogli por milênios. Mas diz a lenda que Roma foi fundada por dois gêmeos, Rômulo e Remo. Esses gêmeos seriam filhos do Deus Marte com uma mulher da nobreza Greco-Latina, uma Virgem Vestal. Vendo-os como uma ameaça ao seu reinado, o rei da época mandou matar as crianças.

Sua mãe, num último recurso desesperado, deixou as crianças às margens de um rio. As crianças, ainda bebês, obviamente não conseguiriam se virar sozinhas. Mas foram amamentadas por uma loba, na caverna Lupercal, onde viria a ser Roma. Depois disso, um pastor encontrou os gêmeos e resolveu adotá-los. Anos depois, eles fundam Roma. O resto é história.

Tudo isso tem muita cara de história bíblica. Reis incompetentes, crianças abandonadas em rios, deuses engravidando virgens. No fim da história, um irmão mata o outro – mais um elemento bíblico. Mas não; a mitologia é totalmente diferente. E o importante aqui é que, sem a Loba, sem a caverna Lupercal, não haveria Roma.

A Lupercalia

É claro que essa história da criação de Roma é só um mito, mas mitos são importantes. O lobo sempre foi importante para os romanos. Tanto que um festival com temática lupina foi celebrado em Roma até o século IV: a Lupercalia.

O nome vem de Lupercal (a caverna onde a loba amamentou os gêmeos fundadores), e também se relaciona com a palavra latina lupus, ou seja, lobo. A Lupercalia era um festival de purificação, e ocorria por volta do dia 15 de fevereiro – o início do ano no calendário da época. Purificação, em latim, é Februa, e é da Lupercalia, a Festa da Purificação, que vem o nome do mês de fevereiro.

Mas se você está pensando que, por ser uma festa de purificação, a Lupercalia era uma coisa limpinha e organizada, reconsidere. Estamos falando de Roma Antiga, meus caros. Nada era limpinho, nada era organizado.

Além do sentido de purificação, necessário na virada do ano, a Lupercalia era vista como uma celebração de Fauno e de Pã.

O propósito original da Lupercália era o de purificar a cidade e exorcizar os perímetros de espíritos malignos e seres hostis. Justino, o Mártir, identificava Lupercus (ou seja, aquele que afasta o lobo) com Fauno, dando-nos os atributos de Pã como aquele que era saudado pelos poetas românticos da época.

 

Nicholaj de Mattos Frisvold – A Arte dos Indomados, p. 38

Carnaval é Para os Fracos

A celebração da Lupercalia acontecia em lugares chave do mito de criação de Roma. A festa começava no Lupercal e depois se espalhava para os arredores.

Os trabalhos eram realizados pelos Luperci (os Irmãos do Lobo, sacerdotes da Lupercalia), comandados por um sacerdote de Júpiter. As festividades começavam com sacrifícios animais: um bode (ou mais) e um cão eram mortos. Os Luperci se ungiam com o sangue do sacrifício, e depois se limpavam com leite (afinal de contas, é um rito de purificação).

Em seguida, os Luperci improvisavam sungas com as peles dos animais sacrificados, e saíam seminus pelas ruas da cidade batendo em quem encontrassem pela frente. Ser acertado por eles era sinal de boa sorte e fertilidade.

Tudo estaria muito controlado se fosse só isso. Mas os Luperci não eram os únicos a se fantasiarem e saírem por aí batendo nos outros. Outros jovens também se fantasiavam de animais e saíam enlouquecidos pela cidade, extasiados, selvagens.

(E ainda tem gente que acha que Carnaval é uma maluquice.)

Mas ao contrário do que se possa supor, a Lupercalia não começou em Roma só por causa do mito de criação da cidade. Como tantas coisas na cultura romana, esse festival tem origem em costumes gregos ainda mais antigos. Há quem diga que os romanos tinham o péssimo hábito de piorar os costumes gregos, mas isso é história para outro dia. No caso da Lupercalia, a origem está na Lykaia dos gregos.

A Lykaia

Assim como Lupercalia, a palavra Lykaia também tem a ver com lobos – em grego, λύκος (lýkos) quer dizer lobo. A época da celebração é parecida – início de março, em vez de meados de fevereiro. Assim como há o Lupercal em Roma, há o Monte Licaão na Grécia. Mas apesar dessas semelhanças, o sentido geral da celebração é bem diferente.

Ao contrário da purificação da Lupercalia, a Lykaia era um grande rito de passagem. Era também um festival de adoração às vertentes lupinas de algumas divindades gregas. Entre estes deuses lobos estão Zeus Lykaios, Apolo Lykaios e Pã Lykaios.

O relógio biológico das meninas dava uma clara indicação do início da transição para a vida adulta: a primeira menstruação. Os meninos, por outro lado, precisavam marcar essa transição por meio de um rito de passagem. A Lykaia era esse rito.

Bem-vindo ao Mundo Adulto

A transição para a vida adulta era marcada por um retorno à bestialidade ancestral. Os celebrantes comiam carne crua. E não era apenas carne de animais. Um menino, um jovem, era sempre sacrificado, e um pequeno pedaço de sua carne era misturado à carne dos animais do banquete.

Dizia-se que aquele que ingerisse aquele pedaço de carne humana se tornaria um lobo por um período de nove anos, e que só retornaria a ser humano se durante esses nove anos não voltasse a provar carne humana. Peter Grey, em Bruxaria Apocalíptica, nos mostra a essência dessa transformação:

Note-se que a vítima no sacrifício de Licaão é um menino, ou seja, é como eles, idêntico aos candidatos à iniciação, até o momento em que sua boca prova do sangue fatídico. Esta é uma violação profunda, uma profanação, e esta é a questão crítica. Ao comer o menino, eles se tornam algo proibido, e este é um momento essencial na transição para a masculinidade, e um ato que os coloca além e fora do reino humano.

 

Peter Grey – Bruxaria Apocalíptica, p. 154

O fato de que o pequeno pedaço de carne humana é uma pequena fração do banquete é irrelevante. Todos que dividiam aquela refeição passavam a ter uma parcela de dúvida. É o mesmo princípio do pelotão de fuzilamento. Nas execuções, há sempre uma bala de festim no rifle de algum dos executores, para que eles tenham sempre uma dúvida razoável sobre terem ou não matado o executado.

De qualquer forma, é na Lykaia que os meninos se tornam homens, ao cometerem, juntos, uma grande profanação, retornando à sua natureza lupina e primordial.

Antes da Lykaia e depois da Lupercalia

E é claro que a Lykaia também não foi uma invenção totalmente grega. Há vestígios de que a origem do festival vem do norte da África, do culto de Moloch. E a partir desse ponto os registros históricos não nos permitem voltar muito no tempo. Mas é bem possível que o próprio culto a Moloch não tenha se originado em Cartago, e sim em outro povo e outra civilização, ainda mais ancestrais.

Por incrível que pareça, a Lykaia continua sendo celebrada até hoje. Mas a comemoração passou para o mês de Agosto, e tudo é muito mais higiênico hoje em dia. Até onde se sabe, nenhum jovenzinho é sacrificado nessa festividade nos dias de hoje.

A Lupercalia foi oficialmente extinta em 391 D.C. Mas o povo continuou celebrando. A proibição verdadeira veio pelas mãos do Papa Gelásio I, no final do século V. Mas na prática não é possível tirar uma festividade das mãos do povo, de forma que o Papa inventou uma celebração chamada Festa da Purificação da Abençoada Virgem Maria, para ocupar seu lugar. Que era basicamente a mesma coisa. Mas mais limpinha.

A Lupercalia Hoje

A tradição permanece até hoje, de forma altamente deturpada, na forma do Dia de São Valentim – o Dia dos Namorados, celebrado no mundo inteiro, menos no Brasil e meia dúzia de outros lugares.

Da próxima vez que você for comemorar o dia dos namorados, lembre-se de que as coisas poderiam ser muito diferentes, com direito a sacrifícios animais e pessoas peladas batendo nas outras, ao invés de filas nos restaurantes.

 

A metáfora da transformação em lobo, o significado dessas festividades para os povos antigos e como esses mistérios continuam sendo relevantes até os dias de hoje, embora sob outras roupagens, são explicados com maiores detalhes em Bruxaria Apocalíptica, de Peter Grey. O aspecto da Lupercalia como um rito de adoração a Pã, ou Fauno, é abordado por Nicholaj de Mattos Frisvold em A Arte dos Indomados. Os dois livros estão disponíveis pelos links abaixo.

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Lupercalia, o Festival dos Lobos