Bruxaria é Clube da Luluzinha?


Certas coisas estão tão enraizadas na nossa cabeça que mal conseguimos questionar. Muitas dessas coisas marcadas a ferro e fogo são consequência da dita “moral” judaico-cristã que martelam na nossa cabeça desde pequenininhos. Mas outras são só resultado do massacre da cultura de massa e da falta de referência que temos no mundo real. E as bruxas são um bom exemplo disso.

Sempre As Bruxas, Nunca Os Bruxos

Veja bem: as bruxas. Não os bruxos. Nem bruxas e bruxos. Isso é engraçado – nossa língua portuguesa, machista em sua essência, sempre privilegia o masculino. Se você tem uma sala com mil mulheres e um homem, são eles, não elas. Mas as bruxas são sempre as bruxas, no feminino, mesmo que exista muito mais de um bruxo por aí. Estranho?

Ao pensar em bruxaria, é inevitável pensar em bruxas, mulheres bruxas. Quando pensamos nas fogueiras da Inquisição, a primeira imagem que nos ocorre é de bruxas, mulheres, agonizando em praça pública. Você consegue pensar em alguma pintura de bruxos? Provavelmente não, mas algumas imagens de bruxas devem vir-lhe à cabeça.

Na cultura pop, praticantes de bruxaria são quase invariavelmente bruxas, e não bruxos. Isso vai desde obras para o público infantil (os desenhos da Disney não nos deixam mentir) até produções focadas em um público mais adulto. Até no mundo de Harry Potter as mulheres são normalmente chamadas de bruxas e os homens de magos. Onde estão os bruxos? Poucas são as exceções, como o controverso filme As Senhoras de Salem (Lords of Salem), do igualmente controverso Rob Zombie.

Essa quase exclusividade das mulheres como representantes da bruxaria tem uma razão histórica. Desde a época dos julgamentos da inquisição, na idade média, as mulheres sempre foram mais comumente acusadas de bruxaria. É claro que homens também foram condenados e queimados pela Igreja (vide os julgamentos dos Cavaleiros Templários, todos homens, no século XIV), mas é dessa época que vem o estigma da associação entre bruxaria e mulheres.

Mas Quem São Esses Bruxos?

Mas é bobagem pensar que só mulheres praticam, ou praticavam bruxaria. Talvez elas sempre tenham sido maioria, olhando por um viés puramente estatístico. Mas vários homens ao longo da história estiveram associados com essa tradição. Por exemplo, o renascimento da bruxaria no século XX, sob a forma do neopaganismo, tem uma grande dívida com alguns bruxos. Exemplos incluem Gerald Gardner, Alex Sanders, Jack Parsons, e até mesmo o próprio Aleister Crowley.

Essas figuras foram importantes para restaurar e repaginar a bruxaria em uma época curiosa. O mundo se recuperava da Segunda Guerra Mundial, e leis antiquíssimas que proibiam a bruxaria haviam acabado de ser revogadas na Inglaterra (terra natal de todos os acima mencionados, exceto Parsons). Isso não significa que desde a idade média até o século passado a bruxaria não tenha sobrevivido longe dos holofotes. Mas isso é assunto para outro dia.

Clube do Bolinha e Clube da Luluzinha

Alguns grupos de ocultistas e sociedades mágicas se identificam com correntes predominantemente masculinas ou predominantemente femininas. Outros chegam ao extremo de proibir por completo que pessoas do sexo oposto tenham acesso aos seus mistérios.

Talvez o exemplo mais clássico seja a Maçonaria, o famoso Clube do Bolinha onde meninas não entram. Pode haver, por trás dessa restrição, uma carga de preconceito, misoginia e tradicionalismo patológico. Todos esses motivos são debatíveis. Mas uma coisa é inegável. A linha de trabalho da Maçonaria é essencialmente masculina e solar. Mesmo que hoje em dia a identidade de gênero seja mais flexível do que em qualquer ponto da história, não faz sentido do ponto de vista mágico expor pessoas do sexo feminino a essa corrente que só pode funcionar para quem nasceu homem.

A bruxaria, por outro lado, trabalha diversos mistérios femininos, que não podem ser trabalhados por pessoas nascidas no sexo masculino, independentemente de orientação sexual. O ciclo menstrual/lunar, por exemplo, é algo que nunca pode ser diretamente experimentado por pessoas desprovidas do hardware verdadeiramente feminino.

Mas isso não significa que a bruxaria não reserva nada de interessante para os homens. Além de aspectos que podem ser explorados por qualquer um, os homens também têm algo para chamar de seu.

O Mistério Lunar Masculino

Homens não menstruam. Mas não quer dizer que o ciclo lunar e a passagem do tempo não tenham para eles um sentido profundo, que pode ser sentido na pele, celebrado, comemorado, explorado.

Peter Grey, em seu Bruxaria Apocalíptica, levanta uma hipótese interessante. A sobrevivência das comunidades humanas mais antigas dependia fundamentalmente da caça. A menstruação das mulheres vinha no momento mais propício para a caça. Outra forma de ver isso é que os homens saíam para caçar no momento mais propício para a menstruação feminina. Isso pouco importa. A lua, em ambos os casos, determinava o ritmo desses eventos.

Os homens com idade suficiente saíam para caçar, se afastavando dos assentamentos e deixando para trás as mulheres, em seu momento menos fértil. Quando voltavam com a caça, com comida suficiente para todos, as mulheres já haviam voltado à sua fase fértil.

Até aí, nada de novo. A grande sacada está aqui: enquanto as mulheres ficavam isoladas, sangrando, os homens saíam para caçar. E, neste processo, também sangravam. Sangravam a si mesmos, sangravam os animais abatidos. Sangue era derramado por toda parte – no assentamento, nos locais de caça. E a lua sempre ditava o tempo.

Explorando a Caçada

O tempo passou. Para a maioria das pessoas que está lendo isso, “caçar” se resume a ir ao açougue e comprar uma peça de carne – o que pode ser feito em qualquer dia, a qualquer hora, por qualquer um, de qualquer sexo. Então como a Bruxaria, nos dias de hoje e na sociedade em que vivemos, pode explorar a Caçada como um mistério e como uma perspectiva mágica?

Peter Grey, mais uma vez, nos dá a resposta. É impossível resumi-la em poucas palavras, mas a ideia básica envolve uma exploração do arquétipo primordial do caçador: o lobo. Foi observando o lobo (não o leão, veja bem, nem o tigre, nem nenhum outro predador – o lobo) que o homem primitivo aprendeu a caçar.

E muito se ouve falar sobre o Sabá das Bruxas, mas esse não é o único evento comunal misterioso trabalhado pela bruxaria. Há também a Caçada Selvagem, muito menos famosa. Assim como o Sabá não é exclusivamente feminino, a Caçada Selvagem não é exclusivamente masculina. Mas os dois eventos têm semelhanças e diferenças bastante curiosas. A exploração da Caçada Selvagem pode ser uma das formas de explorar o arquétipo masculino dentro da perspectiva da bruxaria.

A Caçada Selvagem é a prova de que a bruxaria não é, de forma alguma, um fenômeno exclusivamente feminino.

 

O livro Bruxaria Apocalíptica explora com riqueza de detalhes os mistérios que os bruxos podem explorar, como a licantropia e a caçada selvagem. Ele pode ser adquirido pelo link abaixo:

   compre bruxaria apocalíptica

Bruxaria é Clube da Luluzinha?