Review: Providence, Vol. 1 – Alan Moore & Jacen Burrows


Por Vinicius Ferreira, editor da Penumbra Livros

Às vezes a gente banca o malandro e quebra a cara. Foi o que aconteceu comigo quando comprei a edição gringa de Providence. Não por ser ruim – na verdade, é ótimo! Continue lendo e você vai entender porque eu me dei mal.

Um Micro-Review de Providence

Providence é espetacular. Não é só Alan Moore escrevendo sobre o universo de Lovecraft: é isso tudo, num ambiente interessantíssimo, a Nova Inglaterra do final dos anos 1910. A época em que o próprio Lovecraft escreveu muito de sua ficção.

Alan Moore não é fã do óbvio, isso está claro. Ele fez o favor de não recorrer a referências diretas ao corpo de escritos Lovecraftianos, nem no Neonomicon nem em Providence. E isso é o que torna tudo muito mais sensacional.

Robert Black, o protagonista de Providence, passa por Innsmouth e Dunwich, por exemplo, sem passar por Innsmouth e Dunwich. A família Whateley vira Wheatley, o Necronomicon vira outro livro de outro árabe louco. Cada personagem, cada diálogo, cada lugar esconde um easter egg para quem curte Lovecraft.

Duas Experiências Diferentes

Não pude evitar pensar quanto seria diferente a experiência de ler Providence para quem não leu nada de Lovecraft. Será que a pessoa entenderia o que se passa na fazenda dos Wheateley, ou por que o Dr. Alvarez decidiu investir em um aparelho de ar condicionado na não tão quente Nova Iorque de 1919? Não sei. Tenho a impressão de que duas experiências são possíveis ao ler Providence.

Se você conhece Lovecraft, acompanhar a jornada de Robert é um passeio por cenários levemente familiares, embora nunca confortáveis. A grande dúvida é o que vai acontecer agora?

E se você não conhece Lovecraft, só posso supor como será sua experiência. Mas acredito que a principal pergunta seja o que está acontecendo? E eu francamente não sei qual das alternativas torna a obra mais interessante.

A Arte

De qualquer forma, os quatro primeiros capítulos de Providence, que estão neste primeiro encadernado, são um espetáculo. A arte de Jacen Burrows não me agrada muito, mas tem um grande mérito (provavelmente culpa do Alan Moore, que escreve roteiros enormes e milhões de instruções para os ilustradores): consegue transmitir nuances e deixar o leitor na dúvida o tempo todo. É uma narrativa visual à parte. Dois exemplos do que estou dizendo: a viagem de ônibus para Athol e a olhadinha para trás na última página.

Eu só li os quatro primeiros números, que compõem o primeiro encadernado. Eu acho que sei o que está acontecendo, mas certamente não sei o que vai acontecer. O que eu sei com certeza é que quero continuar lendo Providence. E que não vou continuar comprando as edições gringas.

O Problema do Providence Gringo

Quando saiu Providence lá fora, pensei que nunca ia ser lançado em português. Desesperado, tentei comprar na Amazon. Não consegui, estava esgotado ou caro demais. Só consegui uma reimpressão, meses depois. Tudo bem, eu estava feliz. Chegou minha edição da Avatar Press. Li, gostei, tudo maravilhoso.

Olhando a versão americana, da Avatar Press, ela parece bem OK. Capa dura, papel bom, aquele padrãozinho de encadernado gringo. Mas do lado da edição brasileira da Panini, a da Avatar toma um sacode.

Capa

Providence - Avatar Press

Edição Americana

A capa da edição da Avatar é legal. Como disse antes, não sou o maior fã da arte de Jacen Burrows, mas a ilustração dá um tom da obra, serve ao seu propósito.

A ilustração que a Panini escolheu para sua capa pode não ser tão representativa da obra, mas é mais… bonita. E não é brilhante. Eu odeio laminação brilhante em capa, é uma coisa minha. Por enquanto a versão brasileira está ganhando.

Providence - Panini Books

Edição Brasileira

Acabamento

Guarda do Providence americano

A versão da Avatar, provavelmente na intenção de reduzir custos com algumas páginas extra, não tem nada que não seja essencial. Você abre o livro e já está na primeira página do Capítulo 1. Todas as informações relevantes sobre a obra – autores, editores, coloristas, ano de publicação, etc., estão socadas na guarda (aquele papel mais durinho que mantém o miolo do livro colado na capa dura).

Por falar em guarda, no final da edição da Avatar, a guarda é um papel branco, e só.

Providence - guarda da edição americana

A edição da Panini sai ganhando mais uma vez. Primeiramente, a guarda no início do livro não está coalhada de informações – é apenas um mapa, sem poluição. A ficha catalográfica, por exemplo, ganhou um espacinho só para ela, antes do livro em si começar.

E o final da edição brasileira repete o mesmo mapa (que, aliás, se deram o trabalho de traduzir parcialmente). Não é nenhuma arte nova, mas certamente é mais bonito do que meter uma folha em branco.

Quanto aos demais detalhes de acabamento – papel, costura, etc. – não posso reclamar da americana, não. Está tudo muito parecido.

Mas de qualquer forma, ponto para o time dos brasileirinhos.

Os Diários

Uma coisa me cansou um pouco na edição da Avatar. Cada capítulo se encerra com um trecho do diário de Robert Black, escrito à mão. Eu batalhei para entender a letra dele em alguns pontos, e isso exigia muito de mim. Cansava, dava até sono. E a escrita à mão da edição brasileira agrediu muito menos os meus olhos, e foi muito mais fácil de digerir. Julgue você mesmo se eu estou sendo preciosista.

Ponto para Germana Viana, letrista da edição da Panini.

Providence - Diários de Robert Black

Extras

A primeira página da edição da Avatar é a primeira página do primeiro capítulo. A última página é a última página do último capítulo. O miolo do livro não tem uma vírgula que não seja extremamente essencial.

A edição brasileira, por outro lado, brilha nesse aspecto. Além de todo o conteúdo da versão americana, traz também uma minibiografia de Alan Moore e Jacen Burrows, e, o mais importante: uma galeria com as 7 variações de capa dos 4 volumes que compõem a obra. Isso mesmo: 28 ilustrações a mais.

Mais um ponto para a Panini.

Tradução

É aí que o bicho pega. Como tradutor, eu sei o quanto é complicado traduzir Alan Moore. Principalmente quando ele reproduz uma forma de falar de outra época, maneirismos exagerados e coisas com duplo sentido. Os três casos estão presentes em Providence. E aí, como fica?

Comparei uns trechos que achei mais cabeludos (a conversa com o “meninão” e o informativo da igreja, por exemplo), entre a versão original e a traduzida. Para minha surpresa, os tradutores (Hector Lima e Levi Trindade) deram um show. A tradução não deve nada ao original. Não fica aquele clima de filme dublado que passa de tarde na televisão. Ponto para a Panini, o Hector e o Levi.

Panini não é Conrad

Um último ponto me convenceu a continuar minha coleção pela Panini: a Panini não é a Conrad. Ao contrário da Conrad, que me deixou na mão tantas vezes (Vagabond e Nausicaä são as que mais doem em meu coração) a Panini tem a tradição de terminar aquilo que começa. Então acho relativamente seguro esperar que ela lance os outros dois encadernados que faltam (o segundo acabou de sair nos Estados Unidos, o terceiro ainda está em pré-venda).

Resumindo: se você gosta de Alan Moore, ou de Lovecraft, ou dos dois, compre. Não marque bobeira. Mas mesmo que você consiga ler bem em inglês, não compre a edição gringa, achando que é melhor. Não é. Compre a brasileira, que é mais negócio.

Pode parecer muito conveniente, mas por acaso temos algumas unidades na nossa loja. Juro que isso não é motivo para eu ser tendencioso. Não preciso de empurrãozinho nenhum para falar bem de Alan Moore e Lovecraft.

   Providence, Vol. 1 – Alan Moore & Jacen Burrows

Review: Providence, Vol. 1