Frater Optimus e os Adoradores de Cthulhu


Frater Optimus

Nosso colunista, Frater Optimus, é um mago das antigas. Em sua coluna, ele dá sua opinião sobre os mais variados temas ligados ao ocultismo, mesmo que ninguém tenha pedido. Às vezes ele tem razão, mas na maior parte dos casos ele fala umas bobagens.

Frater Optimus lia Lovecraft na época em que era novidade, e hoje está soltando o verbo reclamando das pessoas que “confundem realidade com ficção” – os adoradores de Cthulhu!

Era só o que me faltava. Como se não bastassem essas porcarias desses cultos evangélicos, agora me aparece uma modinha de gente que adora Cthulhu. Vou te contar, a cada dia que passa eu perco o pouco de fé que ainda tenho na humanidade.

Veja bem, não é que eu não goste de Cthulhu. Eu lia bastante H. P. Lovecraft na época que estava saindo. Aquele rapaz escrevia direitinho. Mas ele cansou de falar que o que ele escrevia era só ficção, que não tem nada a ver com a realidade. E se o sujeito que escreve um livro diz que é tudo invenção, por que é que tem que aparecer um maluco (ou um bando de malucos) pra dizer que o autor não sabe de nada, que é tudo verdade?

O primeiro maluco a começar a seguir esse caminho foi o Kenneth Grant, que me inventou essa história de que o Lovecraft e o Crowley estavam falando das mesmas coisas, mesmo que eles não soubessem disso. Eu discordo completamente – onde já se viu? É a mesma coisa que dizer que um filme qualquer é baseado em fatos reais, sim, mesmo que o roteirista, o diretor e os atores não saibam disso. Ridículo.

Tem gente que acredita no Kenneth Grant, e francamente, não estou nem aí. O problema é deles. Mas tem gente que vai além, e diz que mesmo que o Lovecraft tenha realmente inventado todo um panteão de deuses antigos – Cthulhu, Yog-Sothoth, Shub-Niggurath, Nyarlathotep, Azathoth, Hastur, e por aí vai – isso não faz com que eles sejam menos reais. Mesmo que existam por aí um milhão de versões diferentes do Necronomicon, o livro proibido que Lovecraft inventou (e existem mesmo, acredite!), não significa que nenhum deles seja de verdade.

Aí já é demais para a minha paciência. Tudo tem limite. Quer dizer então que se eu convencer gente o suficiente a acreditar que todos os políticos que estão em Brasília são honestos, isso vai acontecer? Ah, tenha dó. Isso chega a ser infantil. O máximo que eu consigo acreditar – e forçando muito a barra – é que se todo mundo acreditar em uma mesma coisa, pode acontecer uma histeria coletiva, e aquelas pessoas vão achar que a coisa é real, e será real para elas. No caso dos políticos, por exemplo, o povo pode acreditar tanto que eles são honestos que não enxergariam os roubos descarados (como nós sabemos que acontece), mesmo que os políticos em questão nunca tenham parado de roubar. (Esse é só um exemplo, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.)

Com certeza alguém deve estar pensando: quer dizer então que os deuses gregos, romanos, sumérios, nórdicos, todos esses que eram adorados por povos inteiros, são absolutamente reais, e nunca foram inventados por quem quer que seja? A estes, eu respondo: não, acho que eles foram inventados, sim. Mas com base em aspectos da psique humana, e não em maluquices de um escritor ou na boa fé de eleitores burros.

A diferença, então, é que os deuses de mitologias e panteões consagrados, mesmo sendo inventados, servem para alguma coisa – para podermos explorar aspectos da nossa consciência, adquirir conhecimentos, habilidades, e por aí vai. Mas e os Deuses Antigos de Lovecraft? Servem para quê?

Eu francamente não sei. Eu li as histórias – esses seres não ligam para nós! Eles não compreendem nem são compreensíveis para a humanidade. Muito menos representam aspectos psicológicos que podem ser explorados e desenvolvidos. Então como seria possível que representem alguma coisa útil? Mais do que isso: as histórias deixam bem claro que quando eles vierem para cá (ou voltarem, ou despertarem), nós, humanos, estamos lascados.

Mas como dizia Einstein, só existem duas coisas que não têm limites: o universo e a estupidez humana, e quanto ao universo eu tenho as minhas dúvidas. Para você ter uma ideia, agora tem até Igreja de Cthulhu, Ordem de Dagon, e por aí vai – já imaginou uma coisa dessas? Então, mais uma vez: por que alguém ia querer usar esses seres inventados para fazer magia?

Só uma teoria passa pela minha cabeça.

Malvadinhos.

Esse pessoal que diz que segue o caminho da mão esquerda, que coleciona demônios da Goetia como quem coleciona figurinhas do campeonato brasileiro, são o único tipo de gente que consigo imaginar ser burra o suficiente para querer trabalhar com as entidades de Lovecraft.

Digo que são burros por três motivos. Primeiro, porque esses seres não existem. Segundo, porque mesmo se existissem, não seriam úteis do ponto de vista psicológico ou mágico. E terceiro, porque se existirem, não vão fazer nada de bom para nós.

Então, se você quer ver seus esforços mágicos fracassarem, ou se quer arriscar ver a humanidade ser arrasada por uma força cósmica inexplicável, vá em frente. Eu não estou nem aí. Só espero que essa tal Igreja de Cthulhu não tenha o som tão alto quanto o da igreja evangélica que tem aqui perto de casa.

 

Se você é um adorador de Cthulhu e se sentiu ofendido, reclame aqui nos comentários! Mas não fique triste – temos boas notícias para você. Agora na loja da Penumbra você encontra dois álbuns sensacionais em quadrinhos, baseados na obra de Lovecraft: Providence, do mestre Alan Moore, e O Despertar de Cthulhu em Quadrinhos, uma excelente coletânea nacional. E para saber mais sobre a hipótese de Kenneth Grant de que os deuses do panteão lovecraftiano são bastante reais, recomendamos a leitura de O Renascer da Magia e Aleister Crowley e o Deus Oculto, que tratam com maestria sobre este tema.

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