Botando o Coração na Balança


O Livro dos Mortos dos egípcios é um dos mais antigos grimórios que sobreviveu mais ou menos inalterado até os dias de hoje. Foi composto na XIX Dinastia do Egito, por volta de 1250 A.C. Dentre as inúmeras fórmulas e cerimônias mágicas apresentadas por este livro, talvez a mais famosa seja a cerimônia da pesagem do coração, que aparece no terceiro episódio de Deuses Americanos. Mas será que esta cerimônia deve ser interpretada literalmente?

A Pesagem do Coração

O capítulo 125 do Livro dos Mortos se chama “o livro da entrada nos amplos salões das Duas Deusas da Justiça” (uma referência à dupla natureza de Maat). Este capítulo descreve o momento em que a alma do recém-falecido é julgada, e seu destino é selado.

Trata-se de um julgamento: o coração do falecido é pesado na balança de Maat, deusa da Justiça. Anúbis, o deus associado ao pós-vida e à mumificação, coloca o coração em um prato, e uma pena no outro. Thoth, agindo na função de escriba, anota o resultado da pesagem. Se o coração tiver exatamente o mesmo peso da pena, abrem-se para o falecido os portões do pós-vida. Caso contrário, Ammit, um demônio quimérico, devora a alma do morto, que cai no esquecimento.

Livro dos Mortos, 125D

Ilustração 125D do Livro dos Mortos

A Pirataria de Moisés

A cerimônia da pesagem é dividida em partes. A segunda parte se chama confissão negativa. Essa confissão consiste de quarenta e duas afirmações de inocência feitas perante um tribunal de quarenta e dois deuses. Algumas dessas afirmações podem soar familiares:

Não roubei.

Não matei.

Não menti.

Não fui avarento.

Não me deitei com a mulher do próximo.

A lista é longa – afinal, são quarenta e duas afirmações. E qualquer semelhança com os mandamentos bíblicos, em Êxodo 20, não é mera coincidência. Lembre-se que o Livro dos Mortos é egípcio, assim como um tal de Moisés.

É claro que mandamentos e julgamentos são coisas diferentes. Mas a ideia é que uma pessoa que não tenha seguido os mandamentos ao longo da vida não pode ter o coração leve como uma pluma quando morre.

É curioso ver aqui como a moralidade das religiões abraâmicas não era tão diferente da egípcia nesse passado distante. Se Moisés realmente existiu, é provável que tenha vivido por volta do século XIII A.C. Essa é aproximadamente a mesma época em que o Livro dos Mortos foi escrito. Muita coisa mudou desde então.

É pouco provável que os sacerdotes egípcios tenham copiado um inimigo da nação, então vamos ficar com a hipótese mais provável de que Moisés usou o Livro dos Mortos como base para seus mandamentos.

Camadas de Significados

Como toda religião que se preze, o politeísmo dos egípcios tinha várias camadas de significado. A ideia de pesar a coração em um julgamento da alma rumo ao pós-vida é a interpretação óbvia e evidente para qualquer um que leia o Livro dos Mortos. Mas não significa que seja a única. O sacerdote, o iniciado, encontra várias camadas de significado no Livro dos Mortos.

Por exemplo, qual seria o motivo de detalhes minuciosamente os ritos que uma alma deve realizar após a morte? Não seria concebível que essa morte, e se essa pesagem de coração, fossem simbólicas? Kenneth Grant defende que o Livro dos Mortos é um conjunto de instruções “para abrir os veículos fechados”, para quem decide seguir “rumo à luz da consciência completa”. E isso, é claro, nada tem a ver com morte.

Em Aleister Crowley e o Deus Oculto, Grant explica que a jornada ritualística rumo à luz é na verdade algo que o iniciado pode fazer a seu bel-prazer, não muito diferente da assunção de formas-deus, prática difundida pela Golden Dawn.

O sacerdote-magista se identificava com um sigilo em particular; ele assumia uma forma-deus em particular e ressuscitava seu velho eu dos mortos, aparecendo em qualquer forma que escolhesse. O gavião, por exemplo, representava a transformação do subconsciente, a existência automática com consciência da divindade, que era a mais elevada realidade para os antigos egípcios. A expressão “sair para o dia” ou “sair hoje” indica uma emergência dos escuros reinos da noite, ou morte, no dia da participação consciente da Realidade.

 

Kenneth Grant, Aleister Crowley e o Deus Oculto

(p. 147, O Sabbat das Bruxas e a Reencarnação das Obsessões Primordiais)

Grant explica em mais detalhes suas interpretações sobre a visão egípcia da morte, da mumificação e do pós-vida em seus dois primeiros livros: O Renascer da Magia e Aleister Crowley e o Deus Oculto.

Em O Renascer da Magia, ele compara a jornada da alma por Amenti com a viagem do sol pelos céus. Em Aleister Crowley e o Deus Oculto, ele traça as origens históricas, pré-egípcias, do simbolismo da mumificação, e como esse processo tem um paralelo com o mecanismo de funcionamento dos sigilos mágicos.

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