Magos das Palavras: Terry Pratchett

Magos das Palavras: Terry Pratchett


Você pode fazer Ciência ou Arte com qualquer grau desejado de solenidade, “cara de cu” ou hilaridade, mas provavelmente você não vai conseguir Ciência ou Arte excelentes sem colocar alguma diversão em algum lugar.

O mesmo se aplica à Magia – apenas as religiões monoteístas parecem exigir solenidade e uma completa falta de humor em todos os momentos. Qualquer disciplina experimental precisa de um elemento de brincadeira, e eu faço questão que a magia funcione como uma disciplina experimental, onde podemos rir de nossas falhas e rir ainda mais alegremente em nossos sucessos ocasionais.

Terry Pratchett tem uma sensibilidade inegável para a essência da magia. J. K. Rowling não.

 

Peter J. Carroll

O humor é um componente comum no trabalho de muitos magistas do caos, e algumas influências incluem incorporar elementos de gêneros ficcionais como cyberpunk, sci-fi e fantasia. Entre outros, estes podem incluir a apropriação dos escritos de H. P. Lovecraft, Wilson e Shea (Illuminatus!), William Gibson, Michael Moorcock e Terry Pratchett.

Nesta série que começamos, a Penumbra Livros sai um pouco do tema para falar das referências e influências de outras obras no ocultismo.

Uma das maiores influências pode, indiscutivelmente, ser debitada na conta de Sir Terry Pratchett.

Sir Terry Pratchett (1948–2015) foi um autor britânico muito prolífico que escreveu, entre outras (várias) coisas, o livro Belas Maldições em parceria com Neil Gaiman, e que está para virar filme.

Para você ter uma ideia da personalidade do autor, saiba que após ter sido ordenado cavaleiro em 2009, Terry achou que qualquer cavaleiro que se preze deveria ter sua própria espada. Então, ele FEZ a sua espada.

Ele disse a um entrevistador:

Eu fiz a minha própria espada. Eu extraí o minério de ferro de um campo cerca de 10 milhas de distância – fui ajudado por amigos. Mineramos 80 quilos de ferro. Usei argila do jardim e palha para fazer um forno, e acendi o forno com fogo selvagem, usando um arco. Colin Smythe (seu amigo e agente de longa data), doou alguns pedaços de ferro meteórico – “ferro de trovão” tem um lugar especial na magia, e nós colocamos isso na liga. Eu me lembro, quando nós serramos o molde, ela parecia de prata. Tudo naquela espada eu toquei, manipulei e assim por diante … E tudo era como eu imaginei e como sempre deveria ter sido.

(Pausa para uma salva de palmas.)

Além disso Terry Pratchett tem um asteroide (127005 Pratchett) e um fóssil de uma tartaruga marinha (Psephophorus Terrypratchetti) nomeados em sua honra. Atualmente há  uma petição em curso para que o elemento 117  da tabela periódica seja nomeado “Octarina” com o símbolo Oc (pronunciado “ook” em referência ao personagem o Bibliotecário).

A Octarina faz parte da sua obra mais famosa, a série de 41 (!) livros que se passam no universo de Discworld.

Discworld

O Discworld em si é descrito como um grande disco apoiado nas costas de quatro elefantes gigantes, todos apoiados pela tartaruga gigante Grande A’Tuin, que nada através do espaço.

Trata-se de uma série de fantasia, mas não uma série de fantasia como outra qualquer. Na verdade, os livros costumam fazer comédia com os arquétipos e clichês do gênero. Pratchett parodia assuntos do mundo real como a produção de filmes, a publicação de jornais, rock, futebol, religião, filosofia, Grécia Antiga, história egípcia, Guerra do Golfo, Austrália, política universitária, sindicatos, sistemas burocráticos, governos e o mundo financeiro.

A série é composta por livros independentes, mas contém vários arcos de história (ou subséries). Se você quiser conhecer esse mundo, recomendo começar por A Cor da Magia.

A cor da Magia e o número 8

Nos livros de Pratchett, a Octarina é conhecida como “a cor da magia”, que dá título ao primeiro livro da série.

Octarina é a cor Rei, da qual todas as cores menores são meramente reflexões parciais e aguadas. A cor da magia. Viva, brilhante, vibrante, o pigmento indiscutível da imaginação, pois onde quer que apareça, é um sinal de que a mera matéria está submetida aos poderes da mente mágica. É, em si, um encantamento. Mas pode ser descrita também como uma espécie de roxo esverdeado. De acordo com a mitologia do Disco, apenas Magos e gatos podem vê-la.

Na verdade, o número oito, em si, é considerado no Discworld como um número mágico. Por exemplo, o oitavo filho de um oitavo filho será um feiticeiro, e seu oitavo filho será um “sourcerer” (o que não é uma coisa legal – razão pela qual os magos não têm permissão para ter filhos).

A divisão dos tipos de magia em 8 cores é inspirada nessa mitologia.

Peter J. Carroll, em Liber Kaos, segue a hipótese pratchettiana das cores, e diz que “muitas coisas importantes e uteis já foram ditas como piadas”. Carroll também revela que, para ele, esta é uma espécie de roxo-rosa elétrico.

Isso me faz pensar… Você lembra qual era a Cor que Caiu do Céu?

Pratchett era magista?

Isso já foi discutido por muitos no Reino Unido. Ele era amigo de muitos pagãos e bruxas de alto nível . Vários dos seus amigos juram que sabem em quem ele se baseou para criar vários personagens mágicos.

Perguntado diretamente, porém, respondeu:

É melhor eu dizer logo que eu realmente não acredito na magia mais do que eu acredito na astrologia. Afinal, eu sou um taurino, e nós não entramos nessas coisas esquisitas de ocultismo.

Ao meu ver, a própria maneira como ele escreve é bastante mágica. A verdadeira magia do do Discworld é que ele tem um pezinho em quase todos os sistemas. Por exemplo:

  • Pseudo-científico: os feiticeiros tratam a magia como se fosse tecnologia – se realizada com correção técnica, pode funcionar para qualquer um, mas isso depende de anos a fio de estudo e dedicação;
  • Caótico: crença = verdade, e mesmo pouca crença é capaz de criar pequenos deuses;
  • Objetiva: “Mantenha-se concentrada, Tiffany, mantenha sua mente focada! Não há tal coisa como um item inerentemente mágico.”
  • Psicológico: orientado pelo espírito, etc.

Esses múltiplos sistemas enriquecem o Discworld. Pratchett não alimenta a fantasia demasiado humana de uma teoria unificadora ou Lei do Tudo.

 

Peter J. Carroll adotou referências pratchettianas em várias de suas obras. Liber Null e Psiconauta, seu primeiro livro, apresenta os fundamentos de seu sistema, e pode ser encontrado em português na loja da Penumbra Livros.

Magos das Palavras: Terry Pratchett

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